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Criança diz cada uma...
Ligo para Cláudia as duas da tarde e nem bem digo “oi”, Diego, seu filho de cinco anos, toma o telefone para me contar, orgulhoso e eufórico, que seu cachorro agora tem uma casinha com uma placa escrita “Dado” sobre a porta. Entro na onda e exclamo com o mesmo entusiasmo:
- Que lindo meu amor! Depois a tia vai aí ver a casinha nova do Dado... Ao que ele me responde, metafisicamente: - E por que você não vem antes?
Não pude deixar de rir. E de pensar também. Se desenvolvo essa conversa, que mais sairia? - Antes do que, meu amor? - Antes do depois, oras...
Isso é quase o “Gênesis”. E no principio era o caos...
Se a gente refletir sobre tudo o que está intrínseco numa pergunta como essa, volta a era do fogo. Em mim, gerou uma tremenda angústia pelo resto da tarde. E mais ainda agora, enquanto escrevo e me lembro das minhas aulas de filosofia na faculdade, que tão toscas não me poderão ser de grande valia num momento como esse.
O professor era italiano de Genova e falava um português dificílimo de acompanhar, ainda mais recheado com todos aqueles conceitos. Pois ainda assim, suscitei um discussão sem fim com o mestre quando questionei o casamento de Napoleão Bonaparte com Josèphine, dizendo que o grande amor da vida de Bonaparte tinha sido Desiré (que ele abandonou em nome de suas ambições). Passamos metade da aula analisando o impacto dessa escolha, filosófica e politicamente.
E ele nunca soube que eu só sabia disso por causa de um filme da Debby Renoylds e Marlon Brando que eu tinha visto na sessão da tarde: “Desiré: o verdadeiro amor de Napoleão”.
Sou um blefe, sem dúvida. Mas, finjo muito bem!!!
De qualquer maneira, a pergunta do Diego me lembrou uma outra história deliciosa que aconteceu entre o Renato e um primo meu, na época com três anos de idade. Ele estava colorindo numa mesa e o Renato trabalhando na mesa ao lado.
A certa altura, o Renato se dá conta de que o menino estava com a boca todinha pintada de vermelho. - Que é isso cara? Passando batom? Quer virar mulherzinha?
Nem os homens mais engajados estão livres desses momentos de machismo comezinho, né não?!
Meu primo, olhou para o Renato meio perplexo, meio surpreso, e rebateu: - Só mulher usa batom? Homem não? - Claro que não. Sua mãe usa, sua prima usa, mas olha para mim, eu não uso... - Homem não? Só mulher? - É, companheiro, só mulherzinha usa batom, homem não.
- Voce nao usa batom... - Nao, eu nao uso batom. Eu nao sou mulherzinha...
Meu primo ficou calado por uns minutos, pensando, muito provavelmente. Coisa que o Renato não fez antes do comentário cafajeste. E concluiu: - É, mas você usa brinco...
O que me leva a triste conclusão: a gente bem que nasce sabendo sim. Aí cresce. E desaprende.
Escrito por Vanessa às 02h03
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