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Bucha

03.11.2004
 |  Agora que teremos mais quatro anos do cidadão, que tal facilitar nossa vida e aportuguesar Bush? A palavra que desponta como candidata imbatível é “bucha”. Bush (moita em inglês) e bucha têm o mesmo bisavô, o vocábulo germânico bosk, que queria dizer “rama, ramagem”.

Mas o parentesco não é só etimológico. Bucha, além das acepções mais correntes – “qualquer objeto ou material empregado como rolha para tapar orifício” e “material fibroso extraído do interior do fruto seco da bucha (planta)” –, quer dizer ainda, segundo o Houaiss: mentira, falsidade; acontecimento desagradável, contrariedade, mau negócio, logro; pessoa ou coisa incomodativa ou insuportável; pessoa ou coisa que nada vale.

Na bucha.

(Coluna do Sergio Rodrigues)

Enquanto isso, no Xingu...

"Estou agora em uma cidade chamada Canarana, há uns 330 km de chão do Xingu. Acabamos de realizar um encontro regional pela proteção das nascentes do rio Xingu, que estão fora dos limites do Parque. Tinha uns 160 índios, que acabado o encontro, foram ver de perto o boato da construção de uma usina no rio Kuluene, um dos principais formadores do Xingu.

A obra é grande, vai abastecer de energia elétrica uns 160.000 habitantes da região, segundo bocas leigas que falam do assunto na cidade. Ninguém acredita que os índios possam parar a obra. A presença de 100 guerreiros pintados de preto com bordunas nas mãos assustou e interrompeu os trabalhos, até o dia 11, quando haverá uma nova reunião aqui em Canarana.

Os índios prometem trazer povos do Xingu, das áreas Xavante que são aqui próximas, os Bakairi, os Panará e Mebengokré que estão rio abaixo. Se rolar, serão uns 600 índios na pequena e arborizada Canarana.

A obra em si é um absurdo. Estou com os índios nessa, de corpo e alma. De imediato haveria, segundo a UNEMAT, uma grande mortandade de peixes (que já começou). Quem tem pousadas de pesca rio abaixo já colocou à venda, e ainda são previstas outras duas barragens. Mas o que mais mobilizou os índios foi o local onde está sendo feita a obra. São três cachoeiras que têm especial significado para eles. Muitos de nós já ouvimos falar em Kwaryp, a festa que os alto xinguanos fazem para seus mortos, que já virou filme, livro, disco, um sem número de artigos, teses, dissertações e o diabo a quatro.

Mawutisini é o nome que os Kamayurá dão ao seu deus. No alto Xingu, o nome varia, mas o deus é o mesmo. Também a criação do mundo, do homem e as festas são comuns para os povos que habitam aquela região. Mawutisini fez um primeiro Kwaryp, em um local sagrado, onde o barro do fundo do rio pode ressuscitar pessoas. A surpresa maior dos índios quando voltaram da barragem foi essa: ela está sendo feita neste local onde o primeiro Kwaryp foi realizado.

Eles querem a paralisação da obra, a recuperação do que foi detonado, o tombamento do local e vão fazer muito barulho (e guerra se necessário) para isso. Dia 11 o chão vai tremer.

Valeu,
Paulo

PS.: para a campanha foi escolhido no encontro um nome indígena, por coincidência Kamaiurá: Y ikatu Xingu - Y é água, ikatu um adjetivo que diz do belo, do limpo, do bom. Xingu todos conhecem...

Ainda mando mais notícias
Mais beijos"

Paulo trabalha na ONG ambientalista Instituto Socioambiental (ISA) e sabe o que fala.



Escrito por Vanessa às 00h08
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Vivendo com as almas

No ultimo domingo, o Fantástico, num daqueles arroubos de criatividade do Dia das Bruxas (!!!), apresentou uma matéria sobre cemitérios. Mas, esta foi um pouco diferente. Dos personagens mostrados, um deles foi o jardineiro Ernando Batista de Lima, de 31 anos, que, no enterro da mãe, se mudou para o cemitério de Vila Formosa, em São Paulo, aos oito anos de idade.

"Não saía de lá pra nada. Só pra ir ao banheiro e almoçar", contou Ernando, na reportagem. Vinte e dois anos depois, Ernando continua vivendo no cemitério, mas ao menos já tem um cobertor e um canto para dormir: o depósito de ferramentas. "Se eu sair daqui, eu fico doente. Sai daqui pra visitar meu avô e fiquei mal. E só vim sarar quando voltei", diz. E foi no cemitério que o rapaz passou a maior parte da infância e toda a adolescência. E, provavelmente, no cemitério vai viver, morrer e ser enterrado. Vivendo lá para sempre, no fim das contas, nesta relação simbiótica, quase incestuosa, com o local.

Desde então, essa história não me saiu da cabeça. Fico imaginando a solidão que Ernando deve sentir desde aquela época, sem a presença física da mãe. Que, provavelmente, deve ter sido mesmo a única pessoa em sua vida, já que ninguém, nem o tal avo, parece ter se importado que uma criança de oito anos se mudasse para um cemitério.

A cova é de indigente. Não tem lápide, acho que nem cruz. Vai ver, um dos motivos de Ernando ter ficado por lá foi o medo de não encontrar a mãe no dia de visita. Principalmente, porque Vila Formosa é o maior cemitério da América do Sul, com um milhão e oitocentas mil pessoas enterradas. O administrador do local comentou que ali se planta gente. "E isso dói aqui dentro".

Fico pensando que Ernando deve sentir uma tristeza perene, quase atávica. Não é possível que a alegria resista a tanta gente morta. Com que olhos Ernando vê o mundo, se é que o vê, sob a perspectiva do cemitério?! Será que faz alguma diferença para ele que a partir do próximo ano será Serra e não Marta a administrar a cidade onde se localiza o seu micro-cosmo pessoal?

Do Bush, então, nem deve ter ouvido falar! E, cá pra nós, é até melhor...

Será que ele teve o primeiro amor? A primeira transa? O primeiro beijo? De repente, teve tudo isso junto, no colo das prostitutas que rondam o local. E os medos tão comuns da infância, será que teve? Sem cama, não teve monstros embaixo dela. O que deveria ser um alívio, se isto representasse algum consolo e, para falar a verdade, é até infame o comentário. E ainda que os tivesse, quais seriam? Duvidar, sente mais medo de gente que de fantasma...

Quantas vezes, debruçado sobre a terra úmida de sereno, ele deve ter chorado de solidão aos pés da cova da mãe? A solidão física, do estar só, e a outra, que a gente sente aos 16, depois aos 23 e, finalmente, a vida toda...

Adulto, já não tem quase nenhum dente na arcada inferior. Por ali mesmo, só os caninos. E eu só pensava que quando doíam, ele não tinha ninguém que os curasse. Ou que, simplesmente, lhe desse colo. Quem cuidou de suas febres e suas feridas de catapora? Quem catou seus piolhos (que todos passamos por isso)? Quem cortava suas unhas, espremia suas espinhas e lhe dizia que era bonito, apesar de não se parecer com o Fábio Assunção?

Quem lhe deu remédio para verme ou xarope para tosse? Quem costurava suas calças e os botoes de suas camisas? Será que uma pessoa que vive onde tudo termina, guarda alguma esperança? E pensar que sob um ponto de vista, ele teve até sorte, considerando os outros tantos que vivem numa caixa de papelão, embaixo do viaduto, na escadaria da matriz...

E será que tudo isso faz mesmo alguma diferença em sua vida, já que ele, mais do que ninguém, sabe que tudo acaba ali?! Porque, independente da crença, lá é o fim que nossa vista alcança.

Ernando até lê alguma coisa. Antônio Cassani Filho, o Cassan, antigo funcionário do cemitério o ensinou. "O Cassan fez muita coisa na minha vida. Ele me criou aqui dentro. Eu aprendi a ler na administração, pegava os livros, ensinava letra por letra. Tudo que eu aprendi foi aqui dentro, tudo. Não tive educação numa escola. Tive educação dentro do cemitério".

E aí, também penso no tal Cassan, o mais perto de um pai que Ernando teve. O que será que sentia o homem enquanto ensinava uma crianca a viver num cemitério? Mas, para ele nem dá mais para perguntar. Antônio Cassani Filho também já morreu. E, claro, está enterrado no Vila Formosa...



Escrito por Vanessa às 01h37
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Oh, dia. Oh, hora. Oh, azar...

Tudo começou no sábado, quando partimos eufóricos rumo à cidade de Pisco curtir o fim-de-semana prolongado na praia. Para variar, saímos tarde. Primeiro, porque levantamos depois das dez e, finalmente, porque resolvemos almoçar antes de pegar a estrada. Às duas e tanta, já na rodovia, a janela traseira da camionete abriu sozinha, repetindo a proeza uns 40 minutos depois. Ignoramos o sinal, de bestas que somos. Quase à quatro, paramos num posto para o primeiro pit-stop. A coca-cola não estava gelada e o banheiro não tinha papel, mas eu nem liguei, exercitando minha nova filosofia de vida exposta lá no post do dia 27.

Meu estresse só começou mesmo quando vi que o carro estava com incontinência urinária, pois vazava um líquido amarelo da parte dianteira. Abrimos o capô.
- É água...
Ok. Fácil de resolver. Saímos do posto (ainda) tranqüilos, mas uns vinte minutos depois paramos no acostamento com fumaça por todos os lados.
- O fdp do frentista não fechou a tampa do radiador! Tá tudo transbordando aqui...
O marido até botou mais água. Em vão. O carro não saiu do lugar. Resultado: às quatro da tarde estávamos num acostamento no meio do nada, onde do lado direito tinha uma ribanceira e do esquerdo caminhões passando em alta velocidade.

O reboque só chegaria duas horas depois. E eu pensando que antes disso, viria o louco que ia bater na gente, nos jogando ribanceira abaixo. Antes de me chamar de dramática, experimenta viver esta situação com o seu filho de três anos no banco traseiro adorando o balanço do carro quando o ônibus de dois andares passava zunindo do nosso lado. Sem falar do frio que fazia do lado de fora. Meia hora depois, conseguimos avançar até um desvio, onde nos sentimos um pouco mais seguros e o carro morreu de vez. Numa birosca, o Renato encontrou água e um "amiguinho" que se dispôs a ajudar. Em vão: nem a água nem o "amigo" nos serviram de alguma coisa. Principalmente o último, que só sabia balançar a cabeça com gravidade e esperar a gorjeta.

Horas depois, passou o caminhão de reboque. Direto. Batemos a mão, o motorista voltou dizendo que se dirigia ao quilômetro 150.
- Não, meu amigo, é 105... (ali, onde estávamos) - respondeu o Marido.
É, mas depois de ligar para o escritório soubemos que tinha mesmo outro carro quebrado mais adiante. Então era isso, nem o reboque era nosso. Ao longe, um pôr-do-sol deslumbrante por trás dos cerros desérticos com o mar mais além compensava o mico (e foi o mais perto da praia que a gente chegou, já adianto). Do nosso lado, o "amiguinho", lúgubre, avisava:
- Melhor o reboque não demorar muito não, porque quando anoitece fica bem perigoso aqui. Outro dia mesmo, um senhor capotou o carro e o pessoal que parou para ajudar depenou a bolsa da mulher dele...

Preocupados, chamamos o escritório mais uma vez, que nos informou que dois acidentes na rodovia estavam atrasando a chegada do reboque (depois saberíamos que foram dezenas de acidentes, muitos com mortes). Quase às sete da noite, surge a cavalaria. Nos empoleiramos na boléia, doidos por uma pizza e um banho quente (ou o contrário!). Às oito e tanta, ainda na estrada, o motorista recebeu uma chamada avisando que um companheiro seu estava com o caminhão quebrado num outro ponto e precisava de ajuda. Nos encontramos no pedágio e eu só pensando que nossa maré de azar pegava pelo espirro.

Passava das nove quando chegamos no mecânico, que nos ofereceu uma carona até em casa. No caminho, o carro do homem engasgou e, juro, pensei que ficaríamos a pé mais uma vez, confirmando a teoria acima exposta. No domingo, almoçando num restaurante chinês, meu biscoito da sorte avisava que vou receber ótimas noticias. Já o do Renato, estava vazio...

Depois, reclama quando eu falo.



Escrito por Vanessa às 12h59
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