Minha vida de menina
Na página 152 de "Vivir para contarla", de Garcia Marquez, ele conta que a lembrança mais antiga que tem do pai é a do dia em que ouviu pela primeira vez que 33 anos é a idade de Cristo:
"El recuerdo más antiguo que conservo de mi padre es comprobado y nítido del 1 de diciembre de 1934, día en que cumplió treinta y tres años. Lo vi entrar caminando a zancadas rápidas y alegres en la casa de los abuelos en Cataca, con un vestido entero de lino blanco y el sombrero canotié. Alguien que lo felicitó con un abrazo le pregunto cuántos años cumplía. Su respuesta no la olvidé nunca porque en el momento no la entendí: - La edad de Cristo. Siempre me he preguntado por qué aquel recuerdo me parece tan antiguo, si es indudable que para entonces debía haber estado con mi padre muchas veces."
Sei lá por quê, mas também me lembro exatamente do dia em que ouvi essa expressão pela primeira vez, também no aniversário do meu pai. Estávamos todos deitados na cama dos meus pais, coisa que adorávamos fazer e que os irritava profundamente, pois dificultava o cochilo de depois do almoço, quando a minha mãe disse que naquele dia meu pai fazia 33 anos, a idade de Cristo. E eu perguntei o que Cristo tinha a ver com aquilo. E ela me contou que com esta idade Jesus Cristo foi crucificado. Isso nunca me saiu da cabeça e, pra falar a verdade, sempre considerei essa comparação um pouco infeliz.
Isso já tem mais de 20 anos e me parece (cada vez mais) um episódio tão remoto que também se assemelha a uma primeira lembrança de infância. Tal como com García Marquez. Em todo caso, (in)felizmente, minha primeira lembrança de menina é de bem antes disso. Visualizo perfeitamente atravessar a rua com a minha tia Mara me levando pela mão direita enquanto a esquerda empurrava o carrinho do meu irmão. Como sou pouco mais que um ano mais velha do que ele, imagino que eu deveria estar, no máximo, com dois anos de idade quando isso aconteceu. É...
O caso que daqui a pouco faço eu 33 e não deixa de ser estranho saber que em breve terei a mesma idade que o meu pai tinha numa das minhas primeiras histórias de criança. Caramba, to coroca mesmo...
PS: Se voce é como eu e também adorou o som da palavra "canotié" e estava morrendo de curiosidade em saber o que significa, é o chapéu deste distinto senhor aí da foto que, aliás, se nao me engano, é o próprio: o pai do Gabo.
PS2: Aliás, "Minha vida de menina" é o nome de um livro em forma de diário que conta a história de Helena Morley, de Diamantina (MG), entre 1893 e 1895. Foi publicado pela primeira vez em 1942 e tenho a impressao de que a edicao daquele ano foi justamente a que li, porque o exemplar me foi emprestado por uma tia já, como direi, madura na época (ao menos em minha lembranca. Vai ver ela só tinha 33 e eu pensando que já era velha!). Eu devia ter uns dez anos na ocasiao e simplesmente amei o livro. Ficou uma lembranca tao gostosa que uns cinco anos atrás encontrei uma nova edicao, relancado pela Companhia das Letras, e comprei para ler outra vez. É uma delicia, gente! Além de tudo, dá um panorama super interessante do Brasil daquela época aos olhos de uma adolescente. Aliás,a diretora Helena Solberg fez um filme baseado no livro e parece que agradou bastante. Quem gosta desse tipo de literatura vai adorar "Minha vida de menina"!
Escrito por Vanessa às 14h37
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A boa de hoje!
"Existem histórias muito antigas que só passaram a ser conhecidas e redescobertas recentemente. Este é o caso da música afroperuana. Assim com em Cuba ou no Brasil, na época colonial chegaram escravos provenientes de diferentes etnias africanas, as quais desenvolveram e formaram a base daquilo que é chamada de música afroperuana.
Ela é conseqüência de uma mistura original e única das tradições espanholas, andinas e africanas. Da Espanha vem a língua, a preferência por certas formas poéticas como a décima e a copla, além do violão como instrumento musical. Da cultura andina a afinidade com o espírito animista e politeísta de ambas culturas, a melancolia de certas formas musicais. Da África esse incrível ritmo, visceral, congênito, e sua expressão conservada de geração em geração através da dança...
Um desses ritmos é o Landó - no Brasil existe o "lundu" que tem as mesmas raízes angolanas - e poderá ser apreciado na apresentação do Grupo Negro Mendes, na música "Toro Mata", talvez a mais representativa dessa síntese cultural. Poderemos desfrutar também o Festejo, ritmo alegre e cadenciado, que nos incita ao movimento de cadeiras, entre outros ritmos peruanos.
Complementam a apresentação o son cubano, por todos mais conhecido através de músicas como "El cuarto de Tula" do afamado "Buena Vista Social Club", e sua irmã mais nova, a salsa, através de uma versão do Toro Mata interpretada por Celia Cruz, assim como outros ritmos da nossa América Latina.
Merece destaque também a presença do instrumento afroperuano por excelência: o Cajón. Uma simples caixa de madeira que pode competir com uma batería inteira? Certamente é muito mais do que isso, a sua sonoridade e presenca fizeram que seja incorporado há pouco mais de vinte anos à música flamenca, através do Paco de Lucia que ficou admirado com a força musical do instrumento através da interpretação do mestre Caitro Soto. Assim, nas mãos do excelente percussionista brasileiro Rubem Dantas (que fazia parte do grupo flamenco de Paco de Lucia), o cajón se internacionalizou.
A música afroperuana não se parece a nenhuma das suas irmãs caribenhas ou brasileiras. Soa distinto, mexe de diferente forma às pessoas que a dançam. Sua história nos convida à vida e aos segredos da sua criação..."
Quem me mandou foi o Nollan, peruano que vive no Rio e fiel leitor deste blog. Posso garantir, vale a pena. Quem estiver no Rio e puder ir, vá!!! A música e danca afropeurana sao maravilhosas. Conheco a versao de "Toro Mata" da Célia Cruz e também da Susana Baca, mais parecida com a tradicional. Adoro a Celia Cruz, mas prefiro a Susana. Passem no "Butiquim Carioca", comparem e depois me contem!
Valeu, Nollan! Ótima pedida. Como te disse por e-mail, apesar de estar aqui, queria estar aí!!!
GRUPO NEGRO MENDES
SHOW DIA : 12/11/04 LOCAL : BUTIQUIM CARIOCA ENDEREÇO : RUA DA PASSAGEM, 19 – BOTAFOGO (ATRAS DO CINEMA UNIBANCO) HORARIO : 22:00 HRS.
Escrito por Vanessa às 02h14
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Da série : vida real e suas mulheres impressionantes...
Aos 15 anos de idade Rosário Rivera viajava com a família quando o carro quebrou no meio do caminho. Enquanto o consertavam, Rosário chegou até uma delegacia de polícia local e viu, no pátio, quatro operários sendo humilhados pelos guardas. Eles haviam posto uma bandeja de comida no centro do pátio e quando os trabalhadores, que estavam acorrentados, tratavam de alcançá-la, eram golpeados por todos os lados. A menina nunca esqueceu esta visão e ali começou sua conscientização política.
Quatro anos depois estava em Cuba, recebendo treinamento militar como parte do grupo latino-americano amealhado pela revolução castrista. Lá aprendeu a usar armas, luta armada e sobrevivência. E também foi lá que conheceu Che Guevara. Rosário foi um dos soldados da revolução por anos e quando Che passou por Peru rumo a Bolívia foi uma das encarregadas de sua proteção. Pois é...
No dia 4 de dezembro de 1971, Rosário atacou uma mulher que pretendia delatar uma tentativa de assassinato que iria praticar contra um empresário local. Corroída pela culpa, teve sonhos apocalípticos. Angustiada, abriu a Bíblia que alguém lhe havia dado meses antes numa página que falava de castigos e perdão. Nos minutos seguintes, viu uma luz que descia do céu e um corpo envolvido em roupas brancas com marcas nas mãos e nos pés.
Para ela, foi um aviso. Largou tudo e passou a renegar seu passado. Há 19 anos, Rosário Rivera trabalha por crianças em situação de extrema pobreza distribuindo comida em restaurantes populares ou "comedores", como chamam aqui. Também organiza oficinas de carpintaria, serralharia e trabalhos manuais para pais sem trabalho, desenvolvendo uma ação que já recebeu o nome de "revolução da solidariedade". Dizem que é milagreira, mas isso ela não confirma.
Claro que a noticia foi contada sob o matiz da guerrilheira que largou as armas e a vida de bandoleira e encontrou a paz em Deus. Não sei. Pode até ser. Ou de repente, a tal visão foi apenas o efeito da ayuasca (e esse foi um comentário pra lá de fdp da minha parte). De qualquer maneira, sinceramente, tenho cá as minhas dúvidas de que esta mulher, bem lá no fundo, se contente apenas com uma ação que, mesmo válida, é essencialmente assistencialista. Que não promove mudanças e resolve apenas o problema imediato, ainda que o problema imediato seja fome. E, a gente sabe, né, "quem tem fome tem pressa".
Ela até pode estar corroída pela culpa das mortes que carrega e professe a inutilidade da violência, mas uma mulher que viu e viveu tantas outras coisas, deve acreditar numa solução que vá mais além que um prato de arroz e frango. Imagino até que deva ser uma situação meio esquizofrênica, afinal, dos operários humilhados às crianças miseráveis que atende em seu comedor, pouca coisa mudou. Como ela concilia o que vê, o que viu, o que sente, o que aprendeu e o que ainda aprende?
Me pergunto, em qual das duas cartilhas ela encontra consolo e respostas? Na que ela rezava nos fim dos anos 60 ou na de agora?
Escrito por Vanessa às 04h26
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Agora, Elis, eu também sou uma estrela!
Na sexta, depois do show dos Chiquitanos, fomos jantar no Asia de Cuba. Ótimo japones para quem quer um programinha pituco. Ficamos por ali numa mesa pra dois perto do bar, quando me aparece uma odalisca rechonchuda balançando a banda pra cá e para lá com uma roupa lilás de escola de samba.
No telão, um pornô soft inspirado no kama sutra. Que situação... O pobre do Renato não sabia se olhava para tela ou para o umbigo da Jade. Quando ela rodou a cabeça num parafuso 174 rpm pensei que o cara da mesa ao lado ia ter um orgasmo. Sem falar dos indianos que faziam de tudo, menos papai e mamãe!
Que inspirador, gente! ;-)
Um "cameraman vinteañero" acompanhava a dançarina, mesmo quando ela se exibia para os gringos da mesona dos fundos. E eu só no sapatinho, com um cigarro nas mãos, assim de brincadeira, que nos deram na brinde na blitz madrugadora da Kent. Quando acabou o sushi, botei meu casaco e voltei caminhando para casa para suar o saquê . Na segunda-feira, todo o mundo me parava: - Te vi na TV! O câmera era gente grande e eu nem estava de batom, puxa vida! - E você estava fumando...
E eu, que nem sou profissional do tema, virei exemplo de "malos costumbres"! Daqui a pouco vão botar minha foto num maço vermelho de Hollywood dizendo que faço mal a saúde. Contanto que não me acusem de diminuir o apetite sexual, até aguento o tranco. Todo o mundo me viu, até o porteiro do prédio, no Panorama de sábado sobre points descolados da noite limenha. Só não me perguntaram se eu queria sair na televisão, mas tudo bem, o Renato também estava. Nao fosse pelo cigarro, a fama até que estava salva...
O certo é que gente da escola do Mateus, que mal me cumprimentava, já me mandou um abraço: - Dile que la vi. Fumando... Será que agora vou ter que botar silicone, virar loira e posar para a Playboy?! Mas, isso é antes ou depois da oficina de atores?
Escrito por Vanessa às 04h50
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Meu bonsai é um tamagoshi!
Comprei um bonsai no supermercado. Depois que vi no Jô que bonsai é o jeito de cultivar a árvore e que qualquer planta miniatura é um bonsai, acreditei que o fícus de 24 soles do supermercado era original, apesar da "ganga" (sempre achei que bonsai bonsai era inatingível para o meu pobre bolsinho). Supostamente, tem cinco anos e é lindo!
Vem até com manual de instrução: três horas de sol por dia e imersão em água uma vez por semana. Daí que todos os dias desço com a plantinha para o jardim do prédio. Na maioria das vezes nem tem sol, mas ao menos levo o bonsai para passear. Ou o contrário, sei lá.
Hoje foi o dia da imersão e o bichinho chupou a água todinha, de gute-gute como diz minha mãe. Desta vez quem desceu o levou para o jardim foi a Leandra e, pelo que eu vi, se esqueceu de subir. Espero que ele não morra de frio lá embaixo. Tomara que não se traumatize! Quer dizer, tomara que eu não me traumatize, porque se acontece alguma coisa, assino meu atestado de incompetência com plantas. Parece mentira, mas até os cactos morrem nas minhas mãos.
Deve ser porque meu compromisso com eles termina quando afeta demais o meu conforto, porque apesar de estar morrendo de pena do bonsai lá no sereno, daqui do quentinho do meu quarto não saio e ninguém me tira. Sinto muito, mas ele vai ter que passar a noite lá no jardim, socializando com as plantas do edifício, menos delicadas e bem maiores.
Caramba, será que existe bullyng floral?! Valei-me meu São Francisco de Assis!
Sem falar que acabei de chegar do cinema e já me acomodei. Não dá mais para sair, né?! Fui assistir o novo filme do Matt Damon (The Bourne Supremacy). Pois é, não gosto, mas volta e meia to eu lá acompanhando o marido nesse tipo de programa.
Mas, olha, até que não doeu. Exceto pelo áudio ensurdecedor nas cenas de perseguição e luta (tá ficando cada vez pior, né não?!), até que não foi tão ruim. Gostei mais do que do primeiro, por exemplo (é, eu vi o primeiro também), que se pretendia mais elaborado já que o personagem de Damon estava com amnésia total (alguém sabe do que estou falando?) e tinha todo um passado para descobrir.
Pena que tiraram a menina do "Corra, Lola, corra" (Franka Potente). Dava um certo charme para o filme, diria até mais credibilidade, convenhamos. Parece que ela voltou para a Alemanha, não apreciou muito os ares hollywoodianos. O bonequinho aplaude de pé! E eu que achava que não gostava do Matt Damon, descobri que até que gosto. Ironicamente, acho até que gosto mais dele aqui do que no "Talentoso Ripley", no qual ele não conseguiu evitar a canastrice.
Só numa coisa eu não mudei. Continuo detestando o Ben Afleck!
Escrito por Vanessa às 03h30
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Pois, pois...
Estou com uma dor horrível nas costas, dessas que vai do pescoço até o coquix, e já não é de hoje. Pior é que até sei de onde vem: horas demais na frente do computador numa cadeira inapropriada. O caso é que o móvel já estava aqui quando nos mudamos e foi ficando, ficando... Sem falar que não tenho um computador convencional e, sim, um notebook (que volta e meia dá pau pelo excesso de uso). Ou seja, está tudo errado. 
De qualquer maneira, há uma hora tomei um analgésico e a dor ainda ainda não passou. Daí que o post que ia escrever sobre o coral de música barroca de Chiquitanía, povoado do interior da Bolívia, e o show de chorinho maravilhoso com o pessoal do Clube do Choro acompanhado do percussionista brasileiro Bolão, que esteve aqui dando oficinas de percussão, ficam para amanha, tá?!
Sem falar da noitada de sábado regada a muita piada infame e sacanagens inteligentes sobre programas nem tanto. Aliás, dizem que um dos melhores nessa linha na televisão brasileira é um de exorcismo transmitido num canal paulistano as 6:30 da manha. Imperdível!
Pessoalmente, ainda acho que nada supera o que eu vi na semana passada. Quarenta minutos de show, no melhor estilo "Telecurso Segundo Grau", com elenco estelar e tudo, sobre estilos e novas tecnologias das furadeiras. Vocês não têm idéia do estimulante e educativo que foi. Sinceramente, não sei como pude viver tanto tempo sem saber que uma das furadeiras mais modernas do mercado tem empunhadura centralizada que garante maior conforto e ajuda a evitar posições incomodas da mão ou do pulso.
Pois é, se eu fosse uma profissional no assunto e não perdesse meu tempo na frente do computador, não estaria agora sofrendo com a coluna.
Bom, para fechar, duas pérolas da vida real passadas num certo país europeu que a gente insiste em dizer que só tem gente, como direi, desprovida de inteligencia: a primeira é o caso de um músico acompanhado de um famoso comediante brasileiro tentando sacar dinheiro num caixa eletrônico. Enfiaram o cartão, digitaram a senha e, dois minutos depois, eis que a portinhola da máquina se abre e de dentro sai um portu... ops, um cidadao suarento com o indefectível lenço branco nas mãos, perguntando: - Quanto desejas retirar?!
Sob um escandaloso: "Não acredito!", o tal músico garantiu: - Pode espalhar que a história é verdadeira!
Na mesma turnê, o comediante, buscando uma agencia do Banco do Brasil, pede informação na rua: - Senhor, por favor, sabe onde fica a praça Marques de Pombal? O transeunte o encara indignado e passa direto sem responder. O comediante, intrigado, o segue e insiste na pergunta mais algumas vezes: - Senhor, por favor, sabe onde fica a praça Marques de Pombal? Lá pelas tantas, o homem o olha nos olhos e responde, visivelmente irritado: - Claro que sei.
E vai embora. Firme e pragmático como a resposta dada. E a gente acha que as piadas é que são politicamente corretas!
Bom, agora vou mesmo que a dor piorou de ficar aqui e Marido prometeu uma massagem...
Escrito por Vanessa às 01h10
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