Susana Baca
Assim que nos mudamos, todas as pessoas nos diziam que, para aclimatarmos por aqui de fato, antes mesmo de conhecer Cusco, deveríamos conhecer Susana Baca. Ela nasceu em Chorillos, bairro beira-mar onde vivem, tradicionalmente, os descendentes afro-peruanos e sempre foi rodeada por música: o pai era guitarrista e a mãe bailarina. Suas tias cantavam no melhor estilo Aretha Franklin e os vizinhos foram os criadores do grupo "Peru Negro" (sem trocadilhos, please!).
Não poderia ser outra coisa que não cantora, claro. Mas, além de tudo, Susana é uma estudiosa da cultura negra peruana. Para se ter uma idéia, possui uma vastíssima biblioteca sobre o tema e provavelmente é a única por aqui. É bem famosa na Europa e Estados Unidos e muito deste sucesso se deve a David Byrne, que a lançou para o resto do mundo. De qualquer maneira, antes mesmo dele, Chabuca Granda, também afro-peruana, autora de "Fina Estampa" (gravada por Caetano Veloso) e "La Flor de la Canela" (que eu simplesmente amo!), tratou de convertê-la em sua sucessora tanto na arte quanto na vida. E parece ter conseguido.
Junto com o marido, o sociólogo Ricardo Pereira, Susana recorreu os 600 quilômetros da costa peruana recolhendo testemunhos e documentos de povos com ascendência negra. Após onze anos de pesquisa, o resultado deste trabalho se converteu no livro "Del fuego y del água", publicado em 1992. Três anos depois, o casal criou o Instituto Negro Continuo cujo principal objetivo é o de manter viva a tradição afro-peruana.
Definitivamente, os amigos do Renato estavam certos, pois tão deslumbrante quanto Machu Pichu, é Susana Baca. O primeiro show que assistimos da cantora foi mágico. Ela estava com um vestido de seda creme e nada nos pés. Totalmente etérea. Parecia uma fada. Ao mesmo tempo, a delicadeza de sua figura e de sua voz não lhe tiraram a altivez de rainha. Impecável.
Em 2002, ganhou o grammy latino pelo CD "Lamento Negro". A obra, que foi gravada em 1986 e editada anos depois (sem o seu consentimento, diga-se de passagem), é uma coleção com letras de poemas de Pablo Neruda, Alejandro Romualdo, César Vallejo, César Calvo e música de Chabuca Granda. Ironicamante, mesmo com toda sua trajetória, somente depois do grammy a cantora passou a ser conhecida e respeitada em seu próprio país. Mas, isso é outra história.
Atualmente, está iniciando um projeto de compilação de músicas negras com temática religiosa. Vimos uma amostra outro dia e posso adiantar que é de arrepiar. Nos dias 4 e 5 de dezembro ela estará em Paris, a convite da Unesco, participando do encerramento das atividades do Ano Internacional da Abolição da Escravatura. Além disso, em janeiro, Susana lança no Brasil um CD com Gilberto Gil. A boa noticia é que estaremos no país nesta época! Mas, a boa nova verdadeira (pela proximidade do fato) é que hoje mesmo vamos em outro show, no qual ela qual vai experimentar alguns arranjos e novas canções. Prometo que volto e conto como foi!
Aqui, um pequeno exemplo do que estou falando...
UPDATE: Susana Baca juntou-se com artistas de todo o mundo, como Bono, Alanis Morrissette, Michael Stipe (REM) e Antonio Banderas, em uma campanha contra o dumping, aquela prática comercial injusta feita pelos países ricos, que inundam os países mais pobres com produtos a preços subsidiados. O fotógrafo Greg Williams, famoso entre as estrelas de Hollywood, viajou pelo mundo tirando fotos destas celebridades associadas a produtos específicos, no caso de Susana a relação foi com o algodão. A campanha foi publicada hoje na revista Somos, do principal jornal de Lima, e neste domingo sai nas revistas Life, El País Semanal e The Observer. A campanha é promovida pela ONG Oxfam Internacional. Veja todas as fotos aqui.
Escrito por Vanessa às 01h46
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O Homem é o único animal que se diferencia dos demais por agredir as suas fêmeas Jack London Há uns dez anos, mais ou menos, a casa dos meus pais foi invadida por um larápio já conhecido na vizinhança. O cara era ladrão de galinha e aquilo que roubava era usado para comprar droga. A diferença é que, desta vez, ele estava armado. E atirou. Na hora dos disparos, minha mãe gritou, assustada, avizando o meu pai que o perseguia pela rua afora. Graças a Deus, ninguém foi atingido e o cara foi preso no dia seguinte.
Também no dia seguinte, enquanto contávamos toda a história para a vizinha, ouvimos um comentário emblemático: - Bem que eu ouvi mesmo. Na hora dos tiros, minha mãe até falou: "vamos ficar aqui quietinhas, filha, que parece que é briga de marido e mulher. Melhor, a gente não se meter..." .
Como elas ouviram o grito desesperado da minha mae e logo depois um disparo, pensaram que era uma briga de casal que tinha acabado em tragédia. Aí, eu pergunto: e se tivesse sido? E se a pobre da dona Alice estivesse realmente precisando de ajuda porque corria risco de morte? Elas nem se dignaram a chamar a polícia, gente, levando até o fim a máxima que diz que em briga de marido e mulher, não se mete a colher.
Pois é, se as coisas tivessem acontecido como elas imaginaram, a essa altura, minha mãe seria, no máximo, uma estatística. Mais um exemplo de violência doméstica contra mulheres. Mais um retrato da conivência de amigos e familiares com a situação. Porque quem vê ou sabe e não denuncia, é cúmplice. E não é só violência de maridos contra esposas. Falo também daquelas cometidas por pais contra filhas e até de irmãos contra irmãs. Além das que ocorrem em situações extremas, como as de rua (estupro, por exemplo) e guerras.
E os números sao alarmantes: pelo menos uma em cada três mulheres sofrerá algum tipo de violência sexual durante sua vida. Segundo a Anistia Internacional, na maior parte dos casos, o agressor é ou será algum parente ou conhecido da vítima.
Hoje, 25 de novembro, é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher. A data foi escolhida no 1º Encontro Feminista Latino-Americano e do Caribe, realizado em Bogotá, na Colômbia, em 1981, em homenagem às irmãs revolucionárias Mirabal - Patrícia, Minerva e Tereza, presas, torturadas e assassinadas em 1960 a mando do ditador da República Dominicana Rafael Trujillo.
A responsabilidade de fazer com que esta data não seja apenas uma referencia no calendário é nossa.
Escrito por Vanessa às 17h04
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Llaqtaypa Harawin
O quéchua é, hoje, uma língua falada por mais de cinco milhões de peruanos. No entanto, o país oficial não reconhece esta realidade. Os projetos nacionais e, inclusive, os desenhos da educação nacional omitiram os chamados idiomas autóctones, como se fossem um obstáculo ao progresso e a modernização. O presidente Alejandro Toledo até que tenta, desenvolvendo um questionado e enviesado projeto de valorização da cultura andina. O caso é que, na prática, as ações capitaneadas pela primeira-dama são absolutamente caricaturais, transformando a maravilhosa história desde país num pastiche para inglês ver.
Na vida real, esse desprezo se reflete nos sérios problemas legais que enfrentam a maioria dos “quechuahablantes”: por exemplo, o atendimento jurídico é inócuo porque advogados e clientes literalmente não conseguem se entender. A justiça pública não ocorre como deveria por preconceito, falta de interesse, desinformação. Conheci uma menina de 16 anos que estava internada num Centro Correcional sem nem ter entendido o delito que cometeu.
Por só falar quéchua, ela não conseguiu se explicar (serviu de “mula” para os patrões, crente que levava e seu farnel um frango inteiro e umas espigas de milho) e acabou condenada a dois anos de internamento. O mais angustiante é que ela cumpriu grande parte deste período sem entender uma vírgula do que lhe diziam, aumentando mais ainda seu isolamento e perplexidade.
Quando se mudam para Lima, tratam logo de aprender o castelhano e muitos preferem esquecer seu idioma de origem. Ainda assim, a maioria passa a vida inteira servindo de chacota por seu espanhol chiado de cholo (algo assim como um carioca falando qualquer idioma! Aliás, muitos já disseram que o Renato fala espanhol como um “quechuablante”). Até o presidente Toledo sofre o mesmo tipo de preconceito. Sobretudo porque ele aprendeu inglês antes mesmo do espanhol, quando foi estudar em Stanford, e volta e meia mistura os três idiomas em seus pronunciamentos, criando verdadeiros neologismos.
O que se diz é que é difícil perpetuar idiomas indígenas porque são essencialmente orais, não possuindo, historicamente, uma tradução escrita. Além disso, muitas palavras podem ter vários significados, dependendo do contexto e, principalmente, da entonação. Mas já há uma corrente que diz que isso não é argumento. É preconceito, usado para justificar a eliminação do quéchua no currículo escolar
O caso é que há umas três semanas, a Microsoft anunciou que vai lançar uma versão do windows em quéchua para ser usado nas províncias e pequenos povoados. Coisa, aliás, que faz todo o sentido já que é possível encontrar uma cabine de internet em qualquer canto desse país. Tem uma propaganda da Telefônica que diz que aqui tem mais cabine que chifa. Mal comparando, é o mesmo que dizer que no Brasil tem mais ciber café que botequim.
Deve ser mesmo verdade, pois a Microsoft não daria ponto sem nó, certo?
Além disso, é possível encontrar nas Universidades um interesse genuíno de resgate da literatura quéchua. No sábado passado, comprei um exemplar de “Poesia de mi pueblo” (tradução do título deste post, que tomei emprestado da obra). O livro compila poesias em quéchua com tradução em espanhol. A maioria trata de coisas da natureza, morte e amor. Temas simples como a própria vida. Palatáveis e reconhecíveis. Selecionei uma das que considero mais linda. Veja a original em quéchua e a tradução para o espanhol aqui. Ainda que seja impossível entender e até mesmo ler sua versão em quéchua, vale pelo valor estético. As letras parecem dançar em nossos olhos...
Escrito por Vanessa às 04h07
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Espero não ser processada...
Adoro literatura de cordel e embora minha coleção ainda seja bem tímida, até já tenho o meu preferido: "A Chegada de Lampião no Inferno". Maravilhoso. Daí, que pretensiosa que sou, tentei fazer alguma coisa na mesma linha. Compartilho com vocês o monstrinho que saiu. E por favor, não sejam rígidos na crítica, foi só uma brincadeira...
A lenda de Fulam Nefasto, o homem do nome ao revés, e o roubo do dinheiro da quermesse
Um homem chamado Fulam De grande personalidade Deu para raspar os óculos Quando falava inverdades
A lente ficava turva E o lenço cheirando a budum Mas, Fulam não fazia caso Pois mais suja é sua cabeça E não há aquele que esqueça Que ele disse, em certa data Que um homem com desejo Viola, estupra, mas não mata
Fulanito, seu rebento Também era porcalhão Pois do pai ele aprendeu A gostar do que não é seu
Por isso que um belo dia Com a idéia de enricar Os dois juntos, pai e filho, Cumpriram a feia missão De levar juntos para casa Sem que ninguém visse e soubesse A sacola de cruzeiros Do dinheiro da quermesse
O que eles não esperavam É que Golondrina Mulher e mãe Encontrou toda a fortuna E como boba não era Logo quis participar Pois sabia que Fulam Poderia lhe lesar
Pois o próprio Fulanito Já tinha lhe vendido Pelo menos duas vezes A mando, a conselho do pai Quando por ali passava Um caixeiro viajante Que trocou suas pastas d´água Pela mulher elegante
Pena que o tal caixeiro Não era de muita saúde Ficou com a mulher três dias No quarto morreu de infarto Enquanto a pobre chorava Na cama grande do quarto
A segunda foi bem pior Pois o filho lhe mentiu e não disse para ninguém Que o negócio era no circo E para o domador de leão Vendeu a mãe à prestação Com juros de 20 por cento No caso de devolução
Ela agüentou de tudo Fome, chuva, fedentina E quando voltava da feira Cansada e com dor nas pernas Coitada de Golondrina Soube de fonte segura, do homem do realejo Que o feio domador Tinha-lhe abandonado Depois de queimar a lona com bituca de cigarro
Partiu rumou ao Alentejo Com a mulher barbada e gorda Duas numa dama só, que se chamava Amparito Deixando para trás o leão E a dívida com Fulanito
Daí que Golondrina Sem mais ter onde viver Convenceu sua bela filha E o genro desgraçado Que aquela dinheirama Devia ser dividida E que todos mereciam Sua parte no legado
Mesmo que essa fortuna Fosse da população Que confiou no prefeito E jamais imaginou Que o dinheiro da quermesse Da festa de São João Estava muito bem guardado Embaixo do seu colchão
Mas, o delegado da cidade Homem de grande viveza e algo de honestidade Descobriu o roubo a tempo E contou para quem quisesse Que o prefeito era ladrão Antes que Fulam pudesse Gastar no Rio de Janeiro O dinheiro da quermesse Da festa de São João
Fulam, o miserável, disse que tudo era mentira E negava de pé junto a vil desfaçatez E enquanto ele desmentia A forte acusação Dos óculos nada sobrou Virou pó em suas mãos
"Não sou, nem fui ladrão Tudo o que fiz nessa vida Foi servir os meus amigos E minha cidade querida
Se gente de minha sepa Traiu vossa confiança Dou fé nesse momento Com o coração muito sentido Que tiro todos ao vento Porque em casa de Fulam Nefasto Não entra viado ou bandido"
Mas, diante de tantas provas Fulam não pode negar a culpa certa que tinha E foi, então, desmascarado No coreto da pracinha
Sem mais ter o que falar, Fulam Com muito esforço Conseguiu, por fim, chorar E cinco minutos depois Proferiu o que viria A ser uma profecia Para todos os descendentes de sua perpétua família
"A partir desse momento Fulam, amigos meus Será sempre vosso escravo E com a mão no livro santo Mudo todo o pensamento Boto estrada, rodovia e até asfaltamento
Porque o homem quando honrado Não tem vergonha nenhuma De admitir os pecados E os erros cometidos Para assim ser perdoado Até por haver mentido
Não se esqueçam, povo meu, Que Jesus, o Nazareno Quando por todos esquecido Na cruz na hora da morte Largado sob o sereno Teve como companhia um ladrão arrependido
E é por isso que vos digo Em honra Ao nosso Senhor Que de agora para adiante Podem me chamar de Brás Brás, o santo, o justo, o bom São Brás meu nome será
São Brás, amigos, São Brás, aquele que rouba, mas faz!"
Escrito por Vanessa às 23h22
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