Na minha porta
Ela me perguntou se para trabalhar no Brasil é necessário saber português. Eu estava distraída e respondi no automático: que não é pré-requisito, mas é importante, que as condições de trabalho são um pouco melhor que aqui, que há mais direitos trabalhistas etc e tal.
Ela me pediu, então, que a indicasse para um trabalho por lá. Aí, sim, o assunto me interessou de verdade: - Por que?! Você quer ir embora?! - Mais adiante, sim. Preciso me afastar do meu marido... ele me bate, me maltrata física e mentalmente e ameaça se matar se eu o deixar. Acho que só terei paz me afastando dele de maneira radical...
Sinceramente, por essa eu não esperava. Ela é bem jovem, tem 25 anos, está casada há três e tem uma filha de quase dois. - Ele bate na sua filha, também? - Só bateu uma vez. Quando ele ameaça, eu me coloco no meio... - Usa droga? Bebe? - Nao. Ele "me pega" sano mesmo. Neste domingo me deu um empurrão que eu bati na quina da cama. Estou que não me agüento de dor no abdômen... É que ele tem muito ciume de mim...
E, mesmo chorando, ela me falava olhando nos olhos, com muita dignidade. - Mas, bater no rosto ele nao bate, né?! - perguntei, já sabendo a resposta e o porquê. - Não, porque aí todos veriam e ele não teria como negar, coisa que o faz quando conto para alguém das surras que recebo. Aí, no outro dia, ele me vem com um ramo de flores e pede perdão, mas cansei de perdoar. Não agüento mais... - Você tem família aqui?! – ela é de Cusco. - Tenho minhas tias... - E elas sabem o que está acontecendo? - Sabem. Mas, dizem que se casei, tenho que ter paciência e agüentar. - Não. Você não tem que agüentar. Você precisa mesmo se afastar dele. E ele precisa se tratar...
A última fala saiu meio estranha. Os dois estavam desempregados até outro dia. Vivem num quarto, que ela alugou sozinha num primeiro ensaio de separação (até o dia que ele se instalou no comodo e disse que se quiser que saia ela, mas sem a filha). Como falar de terapia, usando um discurso politicamente correto tao típico da classe média, diante deste quadro e num país ainda tão carente de implementação de direitos cidadãos e responsabilidades do Estado?!
Coincidentemente, numa palestra no PNUD hoje, me deparei com a confirmação do que até já desconfiava: no Peru, no ano 2000, 42% das mulheres entre 15 e 49 anos reportaram ter sido agredidas por seus parceiros. Anualmente, cerca de 200 mil mulheres buscam as delegacias denunciando maus-tratos domésticos. O número é espantoso, ainda mais quando a gente pensa que provavelmente é bem maior, já que muitas sofrem calada mesmo.
Os casos de crimes passionais são impressionantes também. Há muito suicídio masculino e, pasmem, pais que matam filhos, em geral por envenenamento, para se vingarem de seus parceiros.
Ela me disse que não adianta denunciar, porque as autoridades não fazem caso. Bem típico. Por outro lado, sei que há boas ONGs de defesa dos direitos da mulher. Há também abrigos, que podem recebe-las (a ela e a filha) enquanto se desenrolam os encaminhamentos legais. Me comprometi a investigar melhor a questão e procurar alguém ou algum organismo que possa ajudá-la com mais eficácia, já que o máximo que posso oferecer é um teto provisório, que ela ainda não sabe se vai aceitar.
Até lá, vai continuar convivendo com ele.
Tanto lá como aqui: "Diversos estudos realizados de 1993 a 1999, em sete países, mostram que poucas são as mulheres vítimas de violência que procuram ajuda das autoridades. A maioria busca algum tipo de ajuda junto à família ou a amigas/os ou silencia, por diversas razões, entre elas: medo de represálias, preocupação com os filhos, dependência econômica, falta de apoio da família e dos amigos e esperanças de que a situação de violência venha a ter um fim."
"Sábado à noite, os moradores de um prédio são apanhados de surpresa com gritos de desespero de uma adolescente que pede por socorro. O pai está trancado no quarto espancando a mãe. Atônitos, os vizinhos chamam a polícia e o serviço de atendimento de emergência. Quando os policiais chegam ao local se deparam com um cenário de terror. Objetos quebrados, o piso e as paredes do apartamento estão cheios de sangue. Após as tentativas de diálogo e negociação com o agressor, a polícia arromba a porta do quarto e encontra uma mulher desmaiada e desfigurada, ela mal respira. Junto ao causador da agressão está o filho caçula do casal, um menino de três anos. O agressor ainda ofereceu resistência à prisão. A filha contou ao vizinho que os pais estão separados e o motivo da separação foi justamente a violência do pai. A história não é nenhum enredo de filme sobre violência familiar. O fato aconteceu num confortável condomínio de classe média de Belém."
Mais informacoes sobre violencia contra mulher aqui, aqui, aqui ou aqui.
Escrito por Vanessa às 17h05
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O que me passa agora
Dia desses tive que ir a escola do Mateus fazer uma atividade com as crianças. O caso é que nao sou muito boa em quase nada: nao sei fazer origami, nem cozinhar comidinhas e nada desses negócios de mae. Fiz, portanto, aquilo que tem sido minha principal atividade há anos: escrevi. Elaborei uma história infantil na qual os heróis eram o Mateus e seus amigos. Montei o livro, xeroquei, contei a historia na sala-de-aula e deixei que a molecada criasse e colorisse as ilustrações. Não sei eles, mas eu adorei! Sem falar que deu uma (re)mexida em minhas prioridades.
Na faculdade, séculos atrás, escrevia contos infantis e os presenteava a filhos de amigos e parentes. Até tentei ganhar a vida com isso e cheguei a entrar em contato com uma franquia de "livros personalizados". O que me desanimou foi que o que eles "vendiam" era, na verdade, um programa de computador.
Saia tudo prontinho, como numa linha de montagem: a gente inseria o nome do menino(a) e o "livro" saia impresso, diagramado e numa embalagem metida a besta - uma bola de plástico transparente com o nome do homenageado escrito em dourado. Ah, faça-me o favor, aquilo não era literatura, era, no máximo, um kinder ovo! Não poderia, jamais, reduzir o que eu acreditava ser, na época, a minha (única e real) vocação a um bombom com uma surpresa dentro.
E como escrever um livro totalmente novo, instigante e pessoal para cada possível cliente seria virtualmente impossível, desisti da idéia. Mas, faze-lo novamente por estes dias me deu uma vontade danada de continuar. Desta vez, de maneira mais séria, responsável e conseqüente. Dizem que, por aqui, o mercado de literatura infantil e infanto-juvenil é algo a ser explorado. Não há muitos títulos e os que tem são traduções. Bastante literatura brasileira, por exemplo. De Ziraldo, com o indefectível "Menino Maluquinho", a José Mauro de Vasconcelos, com "Meu pé de laranja-lima", leitura quase que obrigatória para qualquer estudante de primeiro grau.
O Brasil, por sua vez, já há um certo tempo possui uma espécie de industria da literatura infantil e infanto-juvenil. Atualmente, os títulos dedicados às crianças e aos adolescentes ocupam mais de 15% do mercado literário brasileiro. É um índice bastante considerável. O caso é que, como o numero de livrarias no país não passa de três mil, quem, no final das contas, absorve toda esta produção são as escolas.
Senão vejamos: os números indicam que há no Brasil, atualmente, entre 56 e 58 milhões de estudantes matriculados. Tirando os "novesfora" de evasão escolar, analfabetismo funcional e aqueles que, lamentavelmente, nunca serão grandes leitores (por falta de hábito e/ou dinheiro), em termos absolutos ainda sobra bastante gente dentro dos colégios para quem quer viver de livro, certo?! Ou seja, a industria está aquecida.
Relativizando...
Pois é. Eu também pensava assim. Mas, recentemente, um artigo sobre o tema (Aspectos da literatura infantil no Brasil, Ricardo Azevedo) me fez refletir melhor sobre esta situação. Ou melhor, me fez refletir sobre o meu papel dentro deste quadro. Para Azevedo, restringir a literatura infantil aos muros escolares significa também uma certa uniformização dos títulos destinados as crianças e que os adultos, principalmente os alfabetizados tardiamente, também lêem, importante lembrar.
Para ele, no final das contas, isso pode ser um desserviço, pois "boa parte da indústria editorial pretende produzir apenas uma ficção que seja palatável às escolas. O resultado tem sido o surgimento de livros ‘politicamente corretos’, incapazes de transgredir, de trazer novas idéias, pois tudo isso poderia não ser aceito pela escola. Uma das maiores ameaças que a literatura pode sofrer é essa: ser reduzida a um trabalho ficcional domesticado e utilitário..."
Imaginem o José Mauro, que citei no começo deste texto, lançando "Meu pé de laranja lima" hoje em dia, com todos aqueles palavrões e sugestões (homo)eróticas?! E o que falar de Monteiro Lobato, com a tia Anastácia, cozinheira "preta velha", cheia de crendices, que se referia a D. Benta como "sinhá", ferindo, assim, qualquer bandeira anti-racista?! E o que falar da Emilia, egoísta, egocêntrica e quase perversa?! São clássicos, sem dúvida. Praticamente unanimidades, ninguém tem coragem de mexer. Mas, se fossem lançados hoje, seriam (facilmente) aceitos nas escolas?!
Entretanto, alguém pode negar que isso é literatura de boa cepa e o será sempre, independente de sua contemporaneidade?! Em contrapartida, vocês já se deram conta de que tem zilhões de livros infantis super engraçadinhos, é verdade, mas absolutamente vazios, recheados de lições de moral, sem margem para discussão e questionamentos, já que os próprios questionários de "interpretação de texto" vêm anexados na ultima pagina?!
Não sou, de maneira nenhuma, contra o meio escolar absorvendo a literatura infantil como apoio à educação formal. Muito pelo contrário, acho bárbaro. Mas, Ricardo Azevedo me chamou atenção para algo que ele denomina de "dilema ético" vivido por parte dos escritores infantis (ao qual quero me inserir!) e aumentou (mais ainda) a minha crise: participar do sistema industrial produzindo livros, ou melhor, produtos adequados ao que pede a "industria" ou manter a integridade como escritor, correndo o risco de não ver as obras editadas em canto algum?!
Às vezes, tenho a impressão de que todos estes referenciais de reflexão elevam o standard de tal maneira que o torna quase inatingível. Deve ser daí que vem o meu sabático eterno. Por outro lado, como tudo na vida, há o meio termo. Quero acreditar que será possível agradar os dois mundos e as coisas não são tão maniqueístas assim, como se fossem um ou outro.
Não quero parecer cabotina, mas eu mesma escrevi há uns anos uma série de histórias, misturando prosa com poesia, bem politicamente correta, que tratava da crise vivida por um adolescente ao assumir a sua homossexualidade. Só para frisar que a escrevi quando o tema ainda não estava nas novelas e nem existia Dawson's Creek!
Ao mesmo tempo, esta reflexão é instigadora. E, por que não?, inspiradora. Enfim, o certo é que, em meio a todas estas questões, algo em mim, que andava escondido por anos, anda ressurgindo. Se ficar, eu conto o nome depois.
Escrito por Vanessa às 00h05
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Voltei!!!

Fiz que ia e não fui. Mas, até que foi bom o tempo que fiquei sumida. Pude visitar amigos, conhecer gente nova, para, finalmente, descobrir que gosto mesmo é de estar aqui!
Do lado de cá, faz frio e a moda é uniforme. Todo o mundo de blazer de veludo cotelê, jeans e essas botas que parecem pantufas. E tem também as saias boemias, reclicadas dos anos 70, e muita mini-saia estilo colegial com jaquetas de nylon.
Olho e penso "na deselegância discreta de suas meninas". Algo não combina por essas bandas de cá. Seriam as pernas de fora e o cachecol no pescoço?! Logo aqui, onde as pessoas esquentam a coca-cola no microondas mesmo no verão?! O certo é que as lojas já fazem suas promoções e todo o mundo se veste igual. Inclusive eu! Em Roma...
Do cabelo, bicolor! Ontem mesmo vi uma menina loira em cima, castanha embaixo. Tudo na cabeça, "fazfavor"! Achei super interessante e quis de volta os meus 20 anos, quando podia fazer essas coisas e não o fazia por falta de confiança, que só adquiri aos trinta quando, sabiamente, a utilizo para outras situações... (a cabeça e a confiança!). E olha que adoro um descabelo!!!
Aproveitei e perguntei ao Renato se sou uma mulher difícil. Ele disse que sim e nem me preparou psicologicamente para tanta sinceridade. Fiquei com "cara de parabéns", como já diria a sra. Lu que, aviso aos navegantes, está esplendorosamente grávida! E já que adoro um advérbio, vá lá que estou entusiasticamente pensando no assunto. Detalhes só adiante...
História para o blog, me disse uma amiga, é o filho de seis anos fazendo cara de Nemo na janela do Pizza Hut porque se sentia num aquário. E tem aquela do menino que comeu berinjela crente que era pizza só porque tinha orégano em cima. Querendo, ensino a receita...
Estamos de casa nova, carro novo... er... bem... um novo carro velho, digamos assim. Azul calcinha, espelho com luzinha e farol que levanta quando fica pronto. É praticamente o peru da Sadia!
Por enquanto é só, que conversa inteligente só amanha. Ou quando a tintura do cabelo mudar de cor. Ah, é. Tem isso também... ;-)
PS: Só para lembrar: negrito é link!
Escrito por Vanessa às 03h08
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