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"Maria llena eres de gracia"

Hoje fui na Colônia Penal de Mulheres visitar as brasileiras presas, acompanhando um grupo de cinco amigas mais dois representantes da Embaixada do Brasil. A primeira sensação que tive quando entrei no presídio foi de frio. O prédio fica perto do mar e entra um vento encanado que faz com que o concreto, imaculadamente limpo, fique mais gelado ainda. Numa conversa de corredor, enquanto esperava, fiquei sabendo que elas entram sem nada: sem colchão, sem coberta, sem roupas, sapatos ou meias. E eu só pensava no frio que deviam sentir de madrugada. Mais tarde, uma das senhoras do meu grupo comentaria que, numa próxima visita, nos lembrássemos de levar creme hidratante "já que a pele da mão resseca muito no inverno..." A preocupação pode parecer frívola para alguns, mas, pensando bem, não é tão difícil entender o que um tolo creme hidratante pode ter de dignidade para uma mulher na cadeia...

Elas são oito e todas estão ali por tráfico de drogas. Muitas levadas pela sedução do companheiro, outras, pela do dinheiro "fácil". Tem desde "a situada", que já cumpre pena há um ano meio, à senhora que acabou de chegar, pega no aeroporto com cem cápsulas de cocaína dentro do estomago. Esta não tinha nada. Vestia um casaco emprestado de uma, sandália de outra, e sua única preocupação era como recuperar os documentos, perdidos pelas transferências que passou desde que foi presa.

Ela dizia, angustiada, que é caro demais tirar segunda via no Brasil. "E eu não tenho dinheiro para isso". Por baixo dos panos, Floriano e eu demos um cartão telefônico de interurbano internacional para que ela conseguisse dar notícias à família. "Só vim passar três dias. Aí, aconteceu o que aconteceu, e estou aqui até hoje, sem saber quando volto. Minha família deve estar preocupada". Ainda não tem ideia de que deve ficar uns tres anos presa, depois mais seis em condicional, até poder regressar a casa.

Outra, a única negra do grupo, mineira de Poços de Caldas, beirando os 50, está para receber o indulto. Sua condição de soropositiva em estado terminal lhe dá salvo conduto para voltar ao Brasil. Deve ser deportada na semana que vem. Fiquei sabendo mais tarde que as cápsulas estavam metidas no reto. Já a paulistana de verruga no lábio, que tenho a estranha sensação de já ter visto antes (e ela também sentiu a mesma coisa), deixou no Brasil um filho também com Aids, outro com paralisia cerebral e uma mãe de 78 anos.

Era minha primeira vez e, de tímida que sou, me mantive em silencio até me sentir à vontade no ambiente. Elas me acharam séria. Talvez, até meio besta. Depois, já relaxadas, nos abraçávamos e contávamos algo de confidencia. A "situada" já foi até miss Penal. Seu metro e setenta e cabelos negros não deixam dúvida, ela sabe que é bonita e joga com isso. Vestia uma calça preta, cacharrel branca, sobretudo combinando e na cabeça uma boina de linha salpicada de paetês. Mais estilosa, impossível. Em um determinado momento, me dei conta de que estávamos todas ao seu redor, ouvindo suas histórias...

Depois de quase dois anos, já conhece os códigos. Compra por baixos dos panos beterraba, cenoura e alface e vende, com a conivência das guardas, saladas de verduras para as companheiras que, mesmo sem homem por perto, querem manter a linha. Afinal, todo o mundo sabe, mulher fica bonita é para outra mulher mesmo!

Nenhuma é santa. Elas estavam traficando drogas, foram pegas e vão pagar pelo crime. Ao menos, o lugar não é dos mais indignos. É sabido que elas nunca reclamaram de violência. Reclamam da morosidade, do fato de terem que pagar para tudo, reclamam até do Floriano que, mais que representante da Embaixada, faz o papel de pai, confidente, galã... (que mulher também precisa disso de vez em quando, de galanteria, flerte, mesmo que inofensiva!). Uma das "reclamonas" foi a "patricinha" que, com o marido europeu, tinha praticamente uma fábrica de beneficiamento de cocaína num apartamento chique em Miraflores.

Esta só sabia esbravejar, exigir e choramingar. Nas mãos, um cigarro importado. Os cabelos, pintados de louros, eram sedosos, e sua historia, olhada de perto, cheia de furos. Meu estomago não permitiu que conversássemos. Preciso de menos má-vontade e mais tolerancia, eu sei. Também nao tive tempo de conversar com a "socialite", ex-mulher de um rico emprésario local, que dizem ter sido tao bonita quanto Vera Fisher e só com muito custo pode receber a tintura de cabelo que tínhamos levado. Era aliciadora de "mulas" e foi condenada a vinte anos. Já cumpriu oito.

Mas, não posso deixar de me chocar com as motivações da maioria delas: pobreza, fome, esperança, desespero, sei lá. O que leva uma mulher de 40 e tantos anos, semi-analfabeta, que não sabe direito nem o que é um passaporte, que foi pega porque chamou atenção sobre si na imigração ao querer embarcar sem o atestado de vacina contra febre-amarela, a engolir cem cápsulas de cocaína?! O que leva uma mineira de Poços de Caldas, morrendo de Aids (porque nunca recebeu cuidado algum) a enfiar droga no anus?!

Vou voltar lá mais vezes, porque tenho um trabalho a fazer, que já estou adiando há mais de um ano. Quem sabe, consigo respostas...



Escrito por Vanessa às 01h58
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¡Afroperuano es!

Já falei dele por aqui. Angel Lobatón, pescador de Pucusana, de voz espetacular, aquecida com vinho tinto, que mescla "vals" peruano com a mais tradicional trova cubana. Angel foi descoberto por Floriano Regis, nobre representante do reino do canavial (aquele onde o Renato é o arquiduque!), profundo conhecedor de chorinho, tocador de pandeiro e que ainda acumula a função de vice-consul na Embaixada do Brasil.

Com o ouvido treinado por anos de trabalho na música, Floriano sabia o que tinha diante de si desde a primeira vez que ouviu Lobatón, no delicioso "Sóngoro Cosongo". Além de empresário, virou conselheiro do cantor. No começo, Angel mais bebia que cantava, sua presença nos shows era uma incógnita, pois nem sempre tinha disposição para ir, e o cache, quase nada. Quando tinha que ser informal, usava um blusão de alpaca cinza (esse aí da foto). Nas noites de gala, um terno creme com uma blusa vermelha. Aliás, foi com esta roupa que o conheci, no encerramento do Solocortos no ano passado (também já contei essa historia por aqui!).

No começo, o vestuário surrado tinha lá o seu charme. Despertava um misto de simpatia e pena. Mas, Angel é melhor do que isso. Não precisa de artifícios para se aproximar do público. No entanto, homem simples que é, que largava qualquer noitada se o mar estivesse, literalmente, para peixe (já que antes de tudo, a profissão de pescador era a que garantia comida na mesa), não é de aceitar presente.

Faz pouco tempo que Floriano pode lhe comprar roupas novas sem medo de ofende-lo, usadas no show "Afroperuano soy", que lotou o teatro do Centro Cultural da PUC, em abril. Porque isso é papel de empresário! E, antes mesmo das roupas, alugou um quarto com cama de verdade, pois Angel dormia numa esteira no chão emprestado de um outro pescador amigo seu. Já isso é coisa de amigo...

Eu mesma, que ele diz adorar (pois falo sacanagens como homem!), ainda não tive coragem de lhe comprar um chapéu novo em substituição ao velhinho que ele usa, no melhor estilo Ibraim Ferre, do Buena Vista Social Club. Por enquanto, socializo a cachaça, num golinho antes do show, que ele provou há um ano e disse que é tão bom quanto pisco. Vindo de um peruano da gema, é uma honra!

Agora, Angel é estrela! Do alto de seus 60 e tantos anos é considerado revelação de 2005 na musica afro-peruana. Foi até personagem de matéria na "Somos", revista de fim-de-semana encartada no jornal "El Comercio", aos sábados. Amanha, junto com Rosa Guzman (outra bela representante da musica negra peruana), abre a semana "Encuentro con el Perú" com o show "Afroperuanos son". O irmão, (bonitão, pinta de Dorival Caimmy e jeito de Paulinho da Viola), também estará no palco. Ainda que mais de dez anos mais novo, é ele, com sua guitarra de bastidores, o ponto de equilíbrio de Angel: aquele que insistiu para que o irmao levasse a sério o talento que herdou e que mantém a familia unida em torno da arte (sim, porque há mais talentos no cla Lobaton!).

O show promete. Já eu, juro que conto tudo depois!

Update: O show foi maravilhoso! Angel estava totalmente sem-vergonha, dominando o palco e com um carisma impressionante. A gringa sentada do meu lado estava tao fascinada que, mais um pouco, casava com Lobaton! Os músicos, bem entrosados, foram demais! E a novidade foi a inclusao de um "decimista". Algo na linha de um repentista. De improviso, Davi fazia versos apresentando os músicos, as músicas, os convidados. Um show a parte. Um presente. E uma elegancia de invejar! Angel vestia o indefectivel terno creme com uma camisa de seda vermelha berrante. A boina, novinha em folha, combinava com o atuendo! No final, na hora dos cumprimentos (e depois!), me fez um elogio tao bacana que estou nas nuvens até hoje! Uma dia eu conto!!!



Escrito por Vanessa às 14h45
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