Um tapinha não dói. Será?!
Quando eu estava grávida, numa dessas conversas sobre educação de filhos, disse que era radicalmente contra bater em crianças. E, vejam bem, não estou falando de extremos, como espancamentos e tais, que nisso, tenho certeza, qualquer pessoa de bom senso concordaria comigo. Estou falando da mais prosaica e banal palmada na mão.
Sinceramente, sou da teoria de que palmada não educa. Palmada pune. Nada mais. E para uma criança de dois, três ou quatro anos, punição não é educação. É, no máximo, adestramento... Ou terrorismo, sendo mais dramática. Nem preciso dizer que fui detonada. Até pelo marido! "Eu apanhei do meu pai e nem por isso me converti num adulto traumatizado..." ou "Espera para ver quando seu filho vier..."
Bom, o certo é que meu filho veio e eu continuo convicta de que não se deve bater em crianças. O Renato, na única vez que o fez, foi para o quarto chorar arrependido. Nunca mais repetiu a dose. E olha que a palmada nem foi forte e ainda por cima na fralda!
Eu não bato. Nunca. As diferenças de tamanho, peso e discernimento entre nós dois são tamanhas que não tenho outra palavra para definir uma agressão deste porte que não seja covardia. Não dá.
Ok, tenho certeza de que muitos dirão (ou pensarão) "meus pais me batiam de vez em quando e acho que foi bom para mim...". Bom, os meus também me batiam. Mas, posso contar nos dedos as vezes que o fizeram. E também posso afirmar, agora, de longe, porque me lembro de cada um dos episódios, que o fizeram como resposta a sua própria irritação, impaciência, mau-humor e, especialmente, hábito. Seus pais o fizeram, seus avós, seus irmãos e por aí vai. Ou seja, nao havia aí nenhuma intencao sincera de melhorar o meu caráter, por mais que o discurso tenha sido esse!
O que realmente me tornou uma adulta razoavelmente (!!!) bem-resolvida, com valores, com caráter, não foram as tais palmadas. O que me fez não repetir o tal erro (quando isso foi possível, é claro!) não foi o castigo corporal. Este, só me machucou, física e espiritualmente.
O que fez diferença foram as religiosas conversas nos religiosos almoços diários em família. Foi a solidez do meu pai. A força e a alegria da minha mãe. O carinho, a atenção, a retidão dos dois. E, neste contexto, as palmadas teriam sido mais do que dispensáveis. Não me traumatizaram, é claro. Mas, não contribuíram em nada em minha educação.
A possibilidade de, literalmente, errar a mão é muito grande. Prefiro não correr o risco. Não acho que seja perfeita. Não mesmo. Acho que, muitas vezes, sou permissiva. Sei que mimo demais. Acho que relevo demais e que sou excessivamente relaxada em algumas coisas que horrorizariam outros pais. O caso é que, quando é engraçado, deixo rolar.
Outro dia mesmo, dei uma bronca feia (é, bronca eu dou e também coloco de castigo!) no Mateus porque ele falava na extensão da cozinha enquanto eu conversava com o Renato no telefone do quarto. Ele interrompia a conversa e não me deixava ouvir (e nao era a primeira vez). Assim que desligou o telefone, se dirigiu ao quarto e me disse, com o cenho franzido e muito irritado: - Mamãe, me respeita! Não fale assim comigo!
Vale lembrar que ele tem pouco mais de três anos de idade! Pode parecer demais para alguns. E, talvez seja mesmo, porque eu estava certa e ele não. Portanto, é receber a bronca calado e nada mais. Apesar de liberal, também acredito que existe uma certa deferência que o filho deve manter com os pais, mesmo com os que não batem. Essa perspectiva de quem é quem na família não se pode perder.
Mas, foi tão engraçado, tão inesperado, tão indicativo de um caráter que se forma, que eu ouvi calada a reclamação do meu filhote. Excesso de conversa, talvez?! Pouco pulso?! Falta de palmada?! Ou, como disse um amigo em tom de brincadeira: "também, quem manda educar na cultura do respeito?! Até os 12, a gente educa na cultura do medo. O respeito só vem depois..."?!
Não sei. O certo é que, apesar disso, prefiro do meu jeito, mesmo quando ele corta o próprio cabelo num átimo de segundo! Pois também vejo uma criança carinhosa, espirituosa, bem-humorada, generosa, tranqüila, mas forte (dá para notar, né?!), educada, obediente, que acho que tem funcionado. Ao menos para a minha família.
Leia mais sobre o tema: ONU faz estudo sobre violência contra crianças Paulo Pinheiro, coordenador do escritório da ONU sobre violência contra a infância no mundo: "As crianças me dizem que não agüentam mais apanhar"
Escrito por Vanessa às 03h35
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Se ao menos ele gostasse de usar boné...
Falava eu no telefone com o marido, que está em Oxford doido para voltar para casa. Estava recostada na cama, olhando para o infinito, que acabava logo ali, na parede do quarto. Na minha frente, a estante de livros com as pernas dobradas de tanto peso. E quanto mais eu falava com o Renato, mais a estante se inclinava para o lado esquerdo.
Resolvi ampará-la até que terminasse o colóquio conjugal, mas ela estava decidida a se estabacar no chão. Gritei pela faxineira e o diagnóstico foi definitivo. "Morreu!". Desliguei o telefone, colocamos os livros sobre a cama e nos pusemos a pensar. "E agora? Onde meter essas trocentas coleções, esses zilhões de disquetes e velas e fotos..."
O problema é que aqui já não há mais lugar para guardar livro. Tem livro no guarda-roupa. Tem livro na área de serviço. Tem livro no meu lindo baú de antiquário. Tem livro até no banheiro! Resultado: muda móvel de lugar, puxa daqui, estica dali e deu. A coisa foi mais ou menos resolvida, ao menos até que instalemos umas prateleiras (coisa que estava decidida a não fazer, pois detesto furar parede).
Neste meio tempo, o Mateus me cata a tesoura que estava junto com os livros sobre a cama e diz que vai cortar o cabelo. Dou uma bronca e, rapidamente, tomo a tesoura de sua mão. De noite, enquanto lanchávamos na padaria da esquina, me dou conta de que o Mateus estava com uma enorme "clareira" no alto da cabeca. No começo, achei que era impressão. Depois, me assustei e pensei logo numa doença qualquer, uma dermatite, quem sabe. Mas, como ele não cocava a cabeça e nem tinha ferida alguma, descartei a hipótese. Juro que pensei milhões de besteiras (claro!) até que, finalmente, caiu a ficha. Era algo beeeem mais simples... Era o obvio.
Eu não tinha sido tão rápida. Sim, ele tinha conseguido cortar o cabelo. Vai ver, quando me avisou, já até tinha feito a meleca, e eu, no estresse de guardar os livros, não tinha percebido. Me deu um dejavu danado, pois me lembrou um certo irmão que disse "pensa rápido" e arrancou uma mecha da minha franja, me fazendo penar meses com meia dúzia de cachinhos sobre a testa. Fiquei parecendo o Michael Jackson quando usava aquele "pega-rapaz" ridículo (aqui, até caberia uma piadinha politicamente incorreta... mas, não acho que seja o caso. Não se brinca com essas coisas, né?!).
O caso é que ele cortou tão rente que nem dá para igualar. Se fizer isso, deixo a cabeça do meu filho parecendo uma abóbora: pelada e alaranjada! Tenho duas opcoes: ou finjo que nao vi e deixo tudo como está ou taco um band aid e fico esperando o cabelo crescer. O problema da ultima alternativa é que pode pegar mal. Pode parecer que sou uma mãe relapsa. Vai ver, até sou, afinal, o que ele fazia com uma tesoura na mão, né?! Juro, gente, foi por apenas cinco segundos! Mas, tenho aprendido dia após dia: para uma criança de quatro anos, é tempo mais do que suficiente...
Escrito por Vanessa às 02h17
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Esta é nossa elite...
Clientela da Daslu não diminui com operação da PF
Agência Estado
"Não vejo motivo para isso prejudicar o movimento", disse um cliente que visitava a Daslu pela primeira vez na manhã de hoje. "Não há setor que não sonegue impostos", acrescentou.
Escrito por Vanessa às 16h13
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Praticando...
Curso de noivos
Já fazia bem uns dois meses que ele tinha extraído o siso. Sabia bem a data porque tinha sido no aniversário de dona Carmem, secretária do "seu" Marco Aurélio. Todo o mundo tinha feito uma vaquinha e comprado uma torta para a mulher e, logo na primeira garfada, o dente picou. O pior é que ele teve que ficar a tarde inteira com o siso latejando, porque era dia de balanço e não dava para sair mais cedo.
Foi a própria dona Carmem quem indicou um dentista, primo em segundo grau de sua mãe, e que o atendeu no final do expediente. Ana Lúcia, a noiva, não tinha gostado muito da idéia de ele freqüentar um dentista indicado pela secretária e até reclamou um pouco, como era de seu feitio. O caso é que ela andava mesmo meio mal-humorada porque eles tiveram que adiar o casamento para novembro, já que a igreja escolhida estava com todas as datas ocupadas para maio.
No final, até que acabou sendo bom para ela, porque lhe saiu uma promoção bem na época em que eles estariam em lua-de-mel. Ana Lúcia era bioquímica e trabalhava no laboratório vizinho da firma. Foi assim que eles se conheceram, se encontrando "casualmente" na hora do almoço. Os dois freqüentavam o mesmo restaurante à quilo perto do trabalho.
Agora, eles estavam de casamento marcado e no último dia do curso de noivos, dia de receber o certificado e participar de uns sorteios de lua-de-mel no Nordeste e aluguel de limusine, ele só pensava na terrível dor de dente que o assaltou naquela manha.
Acabou chegando atrasado no tal curso porque tinha ficado meia hora gargarejando água morna com sal, que a mãe disse que era "tiro e queda". Só piorou, já que, além da dor, morria de sede. Ana Lúcia, irritada pelo atraso, nem lhe deu bom-dia quando ele entrou no meio do discurso do padre Paulo sobre a importância do diálogo. Ele segurava o rosto com força, suando, imaginando que assim a dor passaria, pela pressão ou pelo calor.
- Ficou na farra até tarde, é?! – perguntou a noiva, sem encará-lo.
Ana Lúcia era fogo! Uma vez, o tinha largado num restaurante porque ele interveio num bate-boca entre ela e o Maitre sobre a quantidade de gordura aceitável numa picanha. Ela achou que ele estava dando razão ao garçom...
Já para terminar o curso, o padre resolveu comentar que, perto do "grande dia", era normal o casal questionar a decisão do matrimonio. "Afinal, os ânimos ficam exaltados. As moças ficam irrequietas. As mães da moças começam a dar muitos palpites... Aposto que muitos dos rapazes têm vontade de desistir..."
Ele nem prestava atenção na conversa mole do padre, de tanta dor que sentia. Tentava a todo o custo esconder sua agonia, mas deu de gemer justamente quando o padre fez a fatídica pergunta, em tom de galhofa: - Me digam rapazes, quantos de vocês têm pensado em desistir?! - Huuuuummmm... - Paulo Roberto! O grito de Ana Lúcia foi mais forte que os risinhos no salão. E padre Paulo, com voz doce, só piorou a situação: - Calma, minha filha, isso é normal... Vai ver, ele só está brincando!
Ana Lúcia estava enlouquecida e Paulo Roberto só pensava em correr para o dentista. - Ué, Paulo Roberto, você está pensando em desistir do casamento?! E ele balançava a cabeça, apontando para a boca, perplexo. - Fala, Paulo Roberto! Quer saber, não fala nada, não. Vou embora daqui. Agora, quem não quer mais sou eu! Até porque, não sei se conseguiria conviver com um homem que toma sopa chupando a colher. Acho um nojo! Imagina mais velho, com dentadura! E saiu correndo, chorando.
- Ana... ai... Ana... ui... espera! Ele só conseguiu alcançá-la porque ela teve que procurar a carteira para pagar o flanelinha que lhe lavou o carro, no estacionamento. - Que é, Paulo Roberto?! ´Tá pensando que eu não percebi sua cara enquanto o padre falava?! Até suando você estava... que foi, pânico?! - Não é nada disso, Analu... - Ah, não?! E é o que, então?! - É que estou que não me agüento de dor-de-dente...
E só aí ela percebeu o tamanho da bochecha direita do noivo. - Paulo, amorzinho, por que você não foi direto a um dentista?! - E faltar ao ultimo dia do curso de noivos?! Você me matava! Ela ficou calada por uns segundos, até que o olhou e disse, carinhosa: - Vem, seu bobo. Vamos resolver isso que deve estar doendo horrores!
Duas horas depois, com o rosto anestesiado, mas aliviado, ele voltava para casa ouvindo Fábio Junior no rádio do carro. Ana Lúcia, no volante, só quebrava o silencio para soltar uns resmungos que Paulo Roberto não conseguia entender.
"Aposto que ela está envergonhada pelo vexame na igreja", imaginou. "Está se sentindo culpada, minha ´brabinha´. Mais tarde, quando conseguir abrir a boca, vou falar que é bobagem, que todo o mundo vai entender, afinal, todos ali devem estar tão nervosos quanto a gente..."
E quando se virou para apertar a mão da noiva, em sinal de carinho e cumplicidade, ela, aproveitando o sinal vermelho, parou o carro e disse, olhando-o nos olhos: - Também, Paulo Roberto... quem manda confiar em dentista de dona Carmem?! Eu te avisei. Bem feito!
Pensando que nao podia ser sério, ele achou por bem dar um risinho, para indicar que tinha gostado da piada. Mas, por causa da anestesia, o riso saiu assim, enviesado. Como um espasmo. Quase um suspiro...
Escrito por Vanessa às 00h51
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Clonado do Uol
Para os recém-nascidos africanos, muitas armadilhas no caminho para a sobrevivência
Raymond Thibodeaux Em Nairóbi, Quênia
Com apenas duas horas de idade, Wanjiru tem o tamanho de um pacote de pão de forma. Seus olhos ainda estão inchados após despertar para seu nascimento e antes de voltar a dormir. O fato de ter um nome é um sinal da confiança de sua mãe de que este bebê, seu segundo, sobreviverá ao ano.
Para Monica Njeri e milhares de outras novas mães dando à luz diariamente por todo o continente africano, a maternidade é repleta de riscos. Apesar dos bilhões de dólares em ajuda ocidental nas últimas décadas para ajudar a melhorar o padrão de vida na África, as crianças africanas ainda são vulneráveis demais à morte por desnutrição, malária ou Aids, de forma que os recém-nascidos freqüentemente nem recebem nomes em seu primeiro ano.
As crianças do Quênia têm uma chance de 5% de morrer - uma probabilidade boa para os padrões africanos. No Quênia, visto por muitos como a âncora financeira do Leste da África, quase 100 crianças morrem diariamente de doenças, segundo números da ONU.
Em algumas partes da África - no Sudão, por exemplo - as chances de morrer são de mais de 10%. No Quênia, como na maioria dos continentes, o verdadeiro feito é passar dos 5 anos. A taxa de mortalidade para crianças com menos de 5 anos é 10 vezes maior na África do que no mundo desenvolvido.
Este é um dos problemas que os líderes do Grupo dos Oito países mais industrializados esperam resolver aumentando a ajuda para a África e cancelando US$ 40 bilhões em dívidas dos 14 países mais pobres do continente.
Muitos líderes africanos alegam que seus governos estão atolados demais no pagamento das dívidas - freqüentemente contraídas por regimes corruptos que há muito tempo foram derrubados ou tirados do poder pelo voto - para financiar adequadamente programas de saúde e agricultura capazes de melhorar a vida do africano comum.
Um dia após o nascimento, Njeri levará sua pequena filha para casa, onde conhecerá seu irmão de 18 meses, Samuel. A família vive em um quarto de 3 por 3,5 metros. Ele tem eletricidade, mas a água é tirada de um córrego próximo e precisa ser fervida antes de ser bebida. Não surpreende que uma mãe com a confiança e experiência de Njeri insista no uso de mosquiteiros, que eliminam um grande fator de risco para morte de crianças.
Menos de 15% das crianças africanas dormem sob mosquiteiros, e menos de 5% dormem sob mosquiteiros tratados com inseticidas, o que leva a uma das mais tristes estatísticas do continente: na África sub-Saara, a malária mata uma criança a cada 30 segundos.
A maioria das mães na maternidade é adolescente. Algumas estão aqui para seu segundo ou terceiro filho. Meninas com 14 anos aparecem com freqüência, e muitas delas necessitam de cesariana porque seus corpos são pequenos demais para o parto natural. Durante os exames de sangue exigidos nos hospitais e clínicas durante a gravidez, algumas mães descobrem que são portadoras do HIV -uma sentença de morte em grande parte da África, onde apenas uma fração minúscula da população tem acesso aos medicamentos retrovirais.
Muitos maridos nunca visitam a maternidade porque não podem pagar pelo parto. A maternidade de Pumwani perde cerca de um décimo de sua receita com pacientes que não pagam. Muitos dos funcionários do hospital já ficaram mais de dois meses sem serem pagos. A falta de manutenção no hospital está começando a aparecer: janelas trincadas, paredes encardidas, uma barata ocasional correndo pelo piso da maternidade.
A câmara dos vereadores de Nairóbi, que paga grande parte dos US$ 15 mil por mês de custos operacionais do hospital público, deve ao hospital mais de US$ 1,2 milhão. A própria câmara está envolvida em um escândalo de corrupção, com funcionários acusados de desviar mais da metade de seu orçamento, estimado em mais de US$ 200 milhões por ano. Tal dinheiro deveria ser gasto em educação, saúde e obras públicas como água e saneamento.
"Nossos governos já recebem bastante dinheiro em ajuda, mas quanto disto vai para os bolsos de ministros do governo e quanto pinga para as mães pobres e seus bebês?" perguntou o dr. Peter Ngatia, diretor da Amref, uma das principais organizações médicas não-governamentais. "Vamos ser francos com nós mesmos, o perdão da dívida e uma maior ajuda sozinhos não vão ser de ajuda sem um bom governo e transparência", disse ele.
Matéria completa aqui.
Escrito por Vanessa às 02h28
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