Sorria, você está na Globo!
Eu e a minha mania de dar papo para taxista! Sai de uma reunião ótima e entre voltar caminhando para casa ou ir ao encontro do meu marido no trabalho convidá-lo para um café, fiquei com a ultima opção.
Peguei um táxi na porta da Embaixada do Brasil e, assim que abri a boca, ouvi a indefectível pergunta do motorista: - Você não é peruana, é?! - Não, sou do Brasil... - Vive aqui há muito tempo? - Há uns quatro anos, mais ou menos... - E o que te parece o tema da corrupção em nosso país?! "Oba! Já começou!" – pensei. - É uma praga latino-americana, né?! – respondi, cautelosa.
- E o que você acha que a gente, peruano, deveria fazer para mudar essa situação? - Bom... eu acho que as mudanças devem partir de cada cidadão...- comecei, politicamente correta. – Acho que existe uma prática aqui, terrível, de banalizar e horizontalizar a corrupção e a falta de respeito com o bem-comum... - continuei, já discursando. - E isso a gente nota desde na pessoa mais simples até nos políticos. Enquanto não se romper essa cultura do "eusismo" e as pessoas não começarem a pensar no coletivo, não acredito que será possível implementar mudanças. Acho que quando o peruano médio começar a pensar numa construção séria de país e de cidadania, que beneficie a todos e não somente a ele próprio, aí, sim, as coisas começarão a mudar...
- E para a senhora, quais são as diferenças entre o Lula e o Toledo?! - Bom, as semelhanças estão na origem, claro. Ambos vieram de uma realidade bem difícil e chegaram a presidencia de seus países. Mas, as semelhanças terminam aí. Os dois seguiram rumos diferentes na vida. Toledo foi embora, estudou nos Estados Unidos, tem doutorado em economia e praticamente nenhuma tradição política. Sua eleição foi quase um susto. Já Lula sempre esteve envolvido com as questões políticas e sociais do Brasil. Lula é um homem-político, com um projeto político, com um partido sólido que o ampara... (ai, ai)
- E a senhora acha que o Brasil está melhor do que o Peru no combate a corrupção? Vocês têm congressistas tão corruptos como aqui? - Claro que temos! É difícil fazer muitas comparações porque o Brasil é um país enorme, com problemas sumamente complexos... acho que caminhamos bastante em algumas coisas em comparação com outros países da América Latina, mas, agora mesmo, vivemos uma terrível crise política, com escândalos diários de corrupção envolvendo a presidência da república, o partido do governo...
A essa altura, comecei a desconfiar do motorista, porque, apesar da quantidade de perguntas, ele não interagia. Me questionava, mas não dava a sua opinião, bem diferente dos motoristas de taxi comuns... Mas, eu estava tão envolvida com o meu próprio discurso que não dei ouvidos a minha intuição. Pois, é...
E o papo seguia. Chamei Alan Garcia de louco, afirmei que Lourdes Flores, inimiga política do Garcia, me parecia simpática, mas, provavelmente, somente pelo fato de ser mulher (e que minha opinião sobre ela não ia muito além disso). Disse que o Cipriani, o bispo TFP do país, era uma figura nefasta e por aí foi...
Disse, também, que para a classe média nem é que o Toledo tenha sido tão ruim assim, já que a economia peruana cresce ano após ano e o programa de casa própria para esta parcela da população era um sucesso, mas, que infelizmente, esse crescimento não se refletia na realidade peruana. Não contribuía para resolver os problemas sociais profundos pelos quais atravessa o Peru. Não se refletia, principalmente, na educação, pois aqui há problemas seriíssimos no ensino público, que precisa de revisão urgentemente.
Na porta da Oxfam, afirmei que Toledo não me era de todo antipático. Afinal, um homem com sua origem e suas características físicas, ter sido eleito presidente da república de um país tão preconceituoso como o Peru, tinha lá os seus méritos...
Enquanto falava, tirava o dinheiro da carteira para pagar... - "¿Sabes, que?" Essa corrida te saiu de graça, porque eu acabei de te entrevistar para o "Quarto Poder"... – programa jornalístico exibido nas noites de domingo. E me mostrou a carteirinha de jornalista e a câmera camuflada no espelho do carro.
Pois, é. Aconteceu comigo.
Escrito por Vanessa às 23h00
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Update
Hoje recebi a notícia de que foi confirmado o indulto da brasileira portadora do vírus da Aids que conheci na Colônia Penal de Mulheres. Ela sai da prisão amanha. Deve voltar para o Brasil nesta quarta, no vôo de uma da tarde, da Varig.
Escrito por Vanessa às 02h25
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Ela merece
Neste sábado tentei falar com a minha mãe o dia inteiro, sem conseguir. Geralmente, fico tensa com essas coisas, porque sempre penso o pior. Acho que é paranóia de quem vive há muito tempo longe de casa. Ironicamente, desta vez não pensei em nada de ruim.
No meio da tarde, recebi um telefonema do meu irmão me avisando da morte da minha tia. Ela era a mais velha dos 30 filhos do meu avo, estava no CTI já há uma semana e o problema era grave. Ainda assim, sua morte foi uma surpresa para todos nós. Principalmente, porque ela sempre foi de saúde frágil. Desde que me entendo por gente, ouço suas historias de internações. Uma vez, parece até que esteve em coma por uns dias. E sempre sobreviveu a tudo. Além do inquebrantável que era o seu espírito. Talvez por isso, no fundo acreditávamos que ela seria eterna.
Pensei muito se escreveria a respeito. Não queria cair em algo choroso ou dramático e tampouco na linha obtuário de jornal: frio e telegráfico. É que eu estava muito confusa em como expressar os meus sentimentos. Quando meus dois queridíssimos avos morreram, eu não estava lá. Em um deles, até já morava aqui. O fato de não poder enterrá-los sempre me mortificou. Depois que passa o luto, sobra aquela sensação de algo incompleto, sem despedidas. E essa impressão horrível de que podemos encontrar com a pessoa a qualquer momento. Sinto isso fortíssimo em relação ao meu avo paterno, por exemplo.
Na maioria das vezes, essas sensações não são muito agradáveis e eu decidi criar uma casca. Principalmente porque estou longe e devo seguir assim por um bom tempo. Portanto, não posso me permitir sofrer demais com a morte de pessoas queridas, ainda que o sobressalto continue aqui, dentro de mim.
Fiquei todo este fim-de-semana meio tonta, sem saber direito se deveria chorar, medindo e controlando a minha tristeza, essas coisas. Mas, agora, acho que encontrei um caminho. Por isso, estou aqui, falando do assunto.
Quando, finalmente, consegui conversar com a minha mãe, pude perceber uma tranqüilidade que não imaginei que encontraria. Minha mãe cresceu sem mãe, já que a dela morreu quando ela tinha uns três anos. Suas mães sempre foram as irmãs e a madrasta. Daí que é fácil imaginar o que passava pela minha cabeça e o medo que sentia em falar com ela. Pensei que a encontraria arrasada e que eu não saberia o que dizer. Mas, não. Ela estava bem. Até me senti a vontade para contar a historia do "La Sede" e rimos um pouco de toda aquela bizarrice.
Mas, não é difícil entender o porquê. Ela contou que o velório estava lotado (e isso, em plena São Paulo!): toda a vizinhança acompanhou o enterro e a família, ainda que chocada, estava toda reunida. Minha tia era muito católica e, a despeito de qualquer crença ou não-crença que tenhamos, a gente sabe que, numa hora dessas, a religião representa uma preparação e um consolo.
Meu tio, que falou em nome dos irmãos, contou a historia do assalto que ela sofreu há uns dois anos. Os homens invadiram a casa e, não contentes com o roubo, a agrediram e ao seu esposo de 86 anos! Ela não só nunca contou a quase ninguém esta parte do episódio como passou a incluir os ladrões em suas rezas noturnas. Pedia que eles encontrassem um caminho e coisas do tipo.
Acho que a gente, que tende a transformar tudo num ato político, pode até acreditar que essa postura excessivamente estóica encerra um certo conformismo e passividade, que pouco contribuem para as mudanças sociais e o término da violência e todo esse blábláblá engajado que a gente costuma pregar de vez em quando. Pessoalmente, ao saber do fato, só consegui ver uma imensa generosidade e uma capacidade infinita de perdão e tolerância.
Ela era assim. Provavelmente, esta foi a razão da leveza da despedida. Afinal, onde quer que seja o paraíso, todos estão seguros de que ela está lá. E para aqueles que não acreditam que existe algo depois daqui, há a certeza inquestionável de que ela foi um belo ser-humano, merecedora de todas as homenagens.
Por isso, resolvi escrever este post.
Escrito por Vanessa às 04h04
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