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O fazedor de homens...

(Drummond)

Todo homem é uma ilha...
É bom ser uma ilha distante tanto quanto é bom ser um homem.
Todo homem possui uma ponte pois é preciso sair da ilha, seguro.
A ponte de um homem é um braço estendido.
Todo homem é um mundo.

O mundo roda no sistema egocêntrico de suas realidades,
pequenos alumbramentos, medos e coragens.
E quando o homem encara o mundo e se depara - homem-mundo, mundo-homem, volta à ilha:
Todo homem ama sua ilha.

II
O homem faz o homem.
E porque fez o homem, sem nem o homem querer aufere direitos do homem.
Diz a ele: Cresça! E ele fica mais alto.
Diz ao homem: Trabalhe! E ele usa o corpo.
Diz ao homem: Viva! E ele respira e existe.
Diz ao homem: Ame! E ele não sabe como.
Mas diz ao homem: Procrie! E ele faz homens.

Um dia ele morre.
Se a vida foi longa para viver
- é curta para morrer -
porque o homem não fez, não escolheu, não pensou nada.

III
O que faz um homem diferente de outro homem é o que ele pensa.
O que o transforma, também, de um simples fazedor de homens, num criador de homens.
Todo homem é uma vontade.
E se deixa de ser vontade teme a perda de sua posse.

Todo homem é uma consciência.
Nela inclui o seu saber e a parte maior do não saber,
e se aceita o fato, é com ela que ele se entende.
Todo homem é seu corpo.
E sabe dele em contraste com outro corpo, tal é a sua medida.

Como também, a medida de um homem é a sua carência:
porque é assim que ele se assume, porque é assim que ele se liberta.
Quanto mais ele precisa mais ele é maior.
E dá. Pede. Reivindica. Exige, quanto pode.
Luta e sofre.

Todo homem quer deixar sua ilha.
Temeroso de ter que voltar um dia, entretanto, não destrói as pontes.
Enquanto isso, a ilha fica ali, só ilha.
A ponte fica ali, só ponte.
E o homem fica ali, só homem.



Escrito por Vanessa às 14h49
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Pirapora: terra de Marku!

Marku Ribas entrou em minha vida pela porta da casa da minha avó, e não pela vitrola, como deveria. Por muito tempo, eu não sabia direito quem ele era, só que era músico, amigo dos meus tios, do meu pai (que insiste em chamá-lo de Marco Antonio) e tio de uma colega super querida de colégio.

Sabia que era um cantor de relativo sucesso fora dos limites ribeirinhos e desde criança ouvia a historia do LP que ele gravou com os Rolling Stones. Ouvia que, uma vez nos States, para a mixagem do tal disco, tinha sido recebido por um rolls-royce branco em pleno aeroporto, mandado pelo próprio Mick Jagger.

Ouvia a historia do inusitado telefonema do amigo, então íntimo, Caetano, que se apresentou simplesmente como Caê e, por isso, ninguém associou o nome a pessoa (!!!) e de como ele recebia artistas em começo de carreira em seu apê no Maracanã, quando ainda morava no Rio: gente que vocês nem imaginam já passaram por lá filando almoço, jantar e cannabis, em tempos de vacas magras...

Diziam, maldosamente, que ele tinha perdido o bonde do sucesso por não fazer nenhuma concessão a sua arte e que, por isso, tinha voltado para Minas, sem ocupar o seu lugar de direito na MPB. Isso tudo eu ouvia, mas sua música, não. Porque Pirapora é um micro-cosmo do Brasil, às vezes demora em reconhecer seus talentos (quando o faz!). Mas, eu sabia, também, que show de Marku no Palácio das Artes, em BH, é garantia de casa cheia.

Durante muitos anos, Pirapora realizava a "Festa do Sol", com shows de artistas as beiras do rio São Francisco. Lembro-me bem do primeiro: um happening sensacional do Zé Ramalho, com gentes dançando na areia em uma noite fria do mês de julho, no tempo em que ainda tinha inverno por lá.

Mas, do que mais me lembro é de um show de Marku no fim da tarde, com um sol incandescente (que no meio do ano os dias são mágicos em Pirapora) caindo no rio São Francisco, lindo e ainda caudaloso, e uns poucos gatos pingados fascinados com aquele som africano, mas pop, totalmente de vanguarda, ainda mais para uma cidade tão pequena.

Nunca me esqueci daquela tarde alaranjada e de Marku no mirante da Rodolfo Mallard. Chorei de emoção, de orgulho e de pena. Como alguém como ele poderia ter tão pouca platéia em sua cidade natal?!

Aí, morando em São Paulo, começo a escutar aqui e ali que Marku Ribas é ídolo de Marcelo D2, Ed Mota, Simoninha, Max de Castro, Luciana Mello, Bucasa, seu Jorge e o Farofa Carioca, Funk como le gusta e toda essa nova geração do samba-rock brasileiro. E começaram a pipocar matérias, recuperando a trajetória deste sensacional percursionista, compositor e dono de uma voz impressionante.

Me enchi de ufanismo provinciano e fui procurar ouvi-lo melhor, conhecer mais da sua obra. Gente, é demais. O cara é gênio, sem dúvida!

Outro dia, vendo o "Altas Horas", me aparece seu Jorge (lindo!) com uma nova formação musical, lançando o CD "Bambas e Biritas Vol. 1". Fazem parte do grupo o próprio seu Jorge, BiD, que também é o produtor do CD, Carlos Dafé e Marku Ribas. O grupo nasceu a partir do lançamento do CD, que conta com dezenas de participações especiais. O som é uma delicia já "que passeia pelo funk, soul e pelo hip hop sem esquecer a eletrônica".

BiD contou numa matéria que uma das parcerias, com Arnaldo Antunes, nasceu de um som tirado com o cantor mineiro. "Eu fiz a música com o Marku Ribas. Ele gravou uma voz guia, cantarolando qualquer coisa, umas palavras que soavam alguns sons. Então pensamos no Arnaldo Antunes e mandamos para ele essa fita. O Arnaldo pegou o jeito do Marku cantar e criou palavras em cima dos sons que ele havia improvisado. Muito da letra nasceu inspirado e baseado em uma coisa meio cantarolada, que não era nada. Foi muito bem feita pelo Arnaldo Antunes. E ficou legal porque o Marku canta muito bem, com muito feeling".

Procurem por aí. Vale a pena. Vale muito a pena. Recomendo o "72-75 Marku". Impecável. Aqui, "Matinic Moins", a minha preferida do cd. E aqui, "la pli tombé" – adaptação deliciosa de uma canção folclórica da Martinica.

PS: O download das músicas está meio lento, mas quem tiver paciência não vai se arrepender. Já estou resolvendo este problema.

UPDATE: Problema resolvidíssimo!!! Agora, dá para ouvir!



Escrito por Vanessa às 02h13
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